
Por Jamie McGeever
ORLANDO, Estados Unidos, 5 Fev (Reuters) - Os investidores terão que ser muito mais criteriosos quando se trata de apostas em inteligência artificial, porque a narrativa inclusiva que impulsionou o boom generalizado das ações de tecnologia dos Estados Unidos no ano passado chegou ao fim. A maré da IA não sustenta mais todos os barcos e aqueles que navegam tranquilamente em um trimestre podem afundar no seguinte.
O chamado “armageddon do software” desta semana eliminou cerca de US$800 bilhões de valor de mercado do índice S&P 500 do setor de software e serviços, com perdas notáveis entre empresas como Oracle, Inuit e ServiceNow. De acordo com o SocGen, o setor de software está tendo seu pior desempenho em relação ao índice S&P 500 em 25 anos.
A origem da última turbulência parece ser uma nova ferramenta de uma das principais empresas de IA, a Anthropic, um plug-in jurídico para seu serviço Claude AI que pode automatizar grande parte do trabalho jurídico e, com o tempo, os serviços prestados por empresas de software em vendas, marketing e análise de dados.
Mas a queda desta semana não se deve simplesmente a um novo plug-in, em grande parte ainda não comprovado. É um sinal de que os investidores estão percebendo que a revolução da IA está entrando em uma nova fase, na qual o mundo da tecnologia está se fragmentando entre disruptores da IA e vítimas da IA.
Simplesmente comprar um fundo de índice e observá-lo subir com o boom das megacap tecnológicas não é mais uma estratégia ideal. Os investidores terão que escolher os vencedores e evitar os perdedores, determinando onde a IA irá melhorar e onde irá causar disrupção. Em outras palavras, após uma década de retornos excepcionais dos investimentos passivos, a gestão ativa pode voltar a ter seu momento de glória.
O problema, é claro, é que ninguém sabe como isso vai acabar. A tecnologia de IA está em sua infância e seu impacto final ainda é desconhecido. Isso significa que os vencedores de hoje podem ser os perdedores de amanhã — tal é o ritmo desconcertante da mudança.
Veja como as ações da Meta, proprietária do Facebook, foram negociadas no dia seguinte à divulgação de seus dois últimos resultados financeiros. As promessas de investimentos pesados em IA e construção de data centers provocaram uma queda de 11% em 30 de outubro, enquanto uma promessa de gastos igualmente agressiva provocou um aumento de 10% em 29 de janeiro.
Veja a Microsoft. Sua aparente vantagem de pioneirismo em IA entre as “Magnificent 7” ajudou a elevar seu valor de mercado para mais de US$4 trilhões no ano passado, mas o preço de suas ações caiu 25% nos últimos três meses, à medida que os investidores questionaram se seus enormes investimentos serão compensadores.
BAIXA RECORDE NO SETOR DE SOFTWARE
A volatilidade desta semana pode destacar a divergência entre setores e nomes individuais, mas, na realidade, essa tendência vem se formando há algum tempo.
Nos últimos três meses, o índice de tecnologia S&P 500 subiu 9%, enquanto o índice de serviços de comunicação caiu 10%. E a correlação entre as seis maiores empresas de tecnologia dos EUA — Amazon, Apple, Alphabet, Meta, Microsoft e Nvidia — caiu para o nível mais baixo em pelo menos uma década, de acordo com estrategistas de ações do Barclays.
Os analistas do banco esperam que a mudança em relação à narrativa de “maré alta” continue, criando um “mercado de alta tecnologia e altos riscos” que deve dar aos gestores de fundos margem para mais estratégias de investimento temáticas e em ações individuais.
Manish Kabra, do SocGen, considera que o quadro se resume essencialmente a isto: uma venda global de software, por um lado, e um boom global de semicondutores, por outro.
Em teoria, isso deveria ser uma boa notícia para os investidores. Em tempos de deslocamento setorial, quebra de correlações e movimentos fluidos de preços, é possível encontrar pechinchas e oportunidades de arbitragem. É o proverbial “mercado dos selecionadores de ações”.
Michael Toomey, diretor-gerente de negociação de ações da Jefferies, calcula que um recorde de 73% das ações de empresas de software e 45% de todas os papéis do setor de tecnologia estão sobrevendidas, e argumenta que o ETF IGV iShares de tecnologia e software está mais sobrevendido do que nunca em relação ao índice S&P 500 mais amplo.
“Nunca vi um sentimento tão negativo em toda a minha carreira”, escreveu Toomey na quarta-feira. “Acho que estamos prestes a ter um rali muito volátil no setor de software.”
O problema para esses “selecionadores de ações”, no entanto, é que, apesar de terem acesso a uma grande quantidade de dados e pesquisas, as rápidas mudanças na IA e a enorme incerteza sobre seu impacto os deixam essencialmente voando às cegas.
A tecnologia está em constante mudança e parece que vai continuar assim por algum tempo. Os investidores devem se preparar — haverá mais dias e semanas como estes.
(As opiniões expressas aqui são do autor, colunista da Reuters)
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((Tradução Redação São Paulo, 55 11 56447753))
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