
Por Zaheer Kachwala
21 Jan (Reuters) - "O YouTube não é mais apenas conteúdo gerado pelo usuário e vídeos de gatos", disse o presidente-executivo da Netflix NFLX.O, Ted Sarandos, na terça-feira.
Apresentando argumentos convincentes sobre por que a gigante do streaming queria os ativos de estúdio e streaming da Warner Bros Discovery WBD.O, Sarandos observou como gigantes da tecnologia, como o YouTube, da Alphabet GOOGL.O, mudaram o significado de assistir televisão e forçaram a Netflix a mudar de estratégia para acompanhar o ritmo.
"A televisão não é mais o que assistíamos quando éramos crianças... O Oscar e a NFL estão no YouTube. As emissoras transmitem o Super Bowl simultaneamente na TV linear e em plataformas de streaming. A Amazon é dona da MGM. A Apple está competindo pelo Emmy e pelo Oscar, e o Instagram é o próximo passo", afirmou.
"Eles são a TV. Portanto, todos nós competimos com eles em todas as dimensões: por talentos, por verbas publicitárias, por assinaturas e por todos os tipos de conteúdo."
Sarandos e seu copresidente-executivo, Greg Peters, passaram grande parte da teleconferência após a divulgação dos resultados na véspera falando efusivamente sobre a força e a complementaridade dos serviços da Warner Bros., uma mudança drástica em relação ao antigo credo da empresa: construir, não comprar.
Após ter oferecido US$82,7 bilhões em dinheiro para comprar os estúdios de cinema e televisão da Warner Bros, seu extenso catálogo de conteúdo e grandes franquias de entretenimento — incluindo "Game of Thrones" e "Harry Potter" —, a Netflix está envolvida em uma disputa acirrada com a Paramount Skydance PSKY.O.
Os coCEOs da Netflix disseram que não imaginavam que eles fariam uma oferta pelos ativos quando iniciaram o processo de due diligence da Warner Bros. "Quando começamos a analisar a situação, vimos várias coisas que eram realmente empolgantes", acrescentou Peters.
"Ao longo da nossa história na Netflix, debatemos várias vezes a criação de um negócio de exibição em cinemas, mas estávamos ocupados investindo em outras áreas e isso nunca se tornou nossa prioridade. Mas agora, com a Warner Bros, eles trazem um negócio de exibição em cinemas maduro e bem administrado, com filmes incríveis, e estamos muito animados com essa adição", disse ele, revertendo a posição anterior da Netflix de que os cinemas eram um modelo ultrapassado, com o público preferindo o streaming em casa.
"E aí você chega ao lado do streaming, a HBO. É uma marca incrível. Ela diz que a TV de prestígio é melhor do que quase tudo. Os clientes sabem disso. Eles adoram. Eles sabem o que isso significa", disse Peters, acrescentando que o estúdio de televisão da Warner também era um negócio saudável e complementava o da Netflix, expandindo sua capacidade de produção.
INVESTIDORES NÃO ESTÃO CONVENCIDOS
Com o caro acordo ainda pairando sobre sua cabeça, a Netflix apresentou uma receita que superou por pouco as estimativas em um de seus trimestres mais fortes, e previu perspectivas igualmente desanimadoras para o novo ano. As ações da empresa caíram quase 6% no pré-mercado desta quarta-feira.
Embora uma forte programação de conteúdo, incluindo a temporada final da série de ficção científica de sucesso "Stranger Things", tenha contribuído para o crescimento da receita, os altos custos associados à aquisição da Warner Bros. deixaram as pessoas apreensivas quanto ao retorno a longo prazo, disseram analistas.
A Netflix havia anunciado anteriormente que obteve compromissos para um empréstimo-ponte de US$59 bilhões para apoiar o acordo com a Warner Bros. Na terça-feira, aumentou o compromisso do empréstimo-ponte em US$8,2 bilhões para apoiar sua oferta integral em dinheiro de US$27,75 por ação.
A Netflix também informou aos investidores que suspenderá a recompra de ações para ajudar a financiar o acordo com a Warner Bros, e que já incorreu em US$60 milhões em custos relacionados à obtenção de financiamento.
Espera-se que o acordo seja alvo de considerável escrutínio por parte de parlamentares e reguladores da concorrência, uma vez que aquisições desse nível ameaçam monopolizar o mercado e deixar os consumidores com menos opções.
Mas Sarandos procurou, na terça-feira, amenizar essas preocupações, reiterando que o acordo seria "pró-consumidor" e "pró-trabalhador", e que as empresas adquiridas exigiriam novas equipes e proporcionariam mais oportunidades para os criativos.
O acordo "nos permite ter acesso a 100 anos de conteúdo e propriedade intelectual da Warner Bros para desenvolvimento e distribuição de maneiras mais eficazes, o que beneficiará os consumidores e a indústria como um todo", disse.
(Reportagem de Zaheer Kachwala em Bengaluru)
((Tradução Redação São Paulo))
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