
Por Jamie McGeever
ORLANDO, Flórida, 7 Jan (Reuters) - Provavelmente havia muitos motivos por trás da captura pelos EUA (link) e prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro no sábado, mas um fator pouco discutido pode ser a preocupação da Casa Branca com a diminuição da importância global do "petrodólar".
A produção de petróleo da Venezuela é atualmente modesta, em apenas 1 milhão de barris por dia, mas suas reservas declaradas de cerca de 300 bilhões de barris – 17% do estoque global – são as maiores do mundo.
O presidente Donald Trump (link) deixou claro que os EUA estão interessados em explorar esse enorme potencial, afirmando que planeja ter grandes empresas de energia norte-americanas (link) para revitalizar a indústria petrolífera em declínio do país latino-americano.
Manter toda essa produção futura dentro da órbita dos EUA poderia impactar mais do que apenas os mercados de energia, pois criaria muito mais petrodólares – um instrumento que há muito tempo ajuda os EUA a manterem sua dominância no sistema financeiro global.
ASCENSÃO E QUEDA DO PETRODÓLAR
O termo "petrodólar" foi cunhado em meados da década de 1970, quando os Estados Unidos e a Arábia Saudita concordaram que as vendas globais de petróleo seriam denominadas em dólares, criando uma nova fonte de demanda para a moeda norte-americana e consolidando o poder estratégico, econômico e político dos EUA.
O período entre 2002 e meados de 2008 – quando o petróleo quase atingiu US$ 150 por barril – possivelmente marcou o auge do poder do petrodólar.
Naquela época, os EUA eram o maior importador mundial de petróleo bruto, o que permitia aos países produtores acumular enormes superávits comerciais, grande parte dos quais era reinvestida no vasto mercado de títulos do Tesouro norte-americano. Isso exercia pressão para baixo sobre os rendimentos dos títulos e as taxas de juros dos EUA e, consequentemente, sobre as taxas de juros globais.
Avançando para 2026, o cenário é bem diferente. Graças à revolução do petróleo de xisto, os EUA são agora o maior produtor mundial de petróleo e têm sido exportadores líquidos desde 2021.
Entretanto, muitos países produtores, como a Arábia Saudita, agora utilizam seus superávits comerciais impulsionados pelo petróleo para cobrir seus próprios déficits orçamentários internos crescentes.
Além disso, a ascensão do poder econômico da China e as novas tensões geopolíticas reduziram a porcentagem do comércio global de petróleo denominada em dólares. Não existem dados oficiais, mas estima-se que até 20% do comércio mundial de petróleo bruto seja agora cotado em moedas que não o dólar, como o euro ou o iuan chinês.
A relação entre o dólar e o petróleo também mudou.
Analistas do JP Morgan estimam que, durante o período de 2005 a 2013, uma valorização de 1% do dólar norte-americano ponderado pelo comércio reduziu o preço do petróleo Brent LCOc1 em cerca de 3%. No período de 2014 a 2022, uma alta de 1% no dólar reduziu o preço do Brent em apenas 0,2%. E no ano passado, tanto o dólar quanto o petróleo caíram em vez de se moverem em direções opostas.
Portanto, quer se analise as participações oficiais dos produtores de petróleo em títulos do Tesouro ou as receitas petrolíferas como percentagem dos fluxos de capital globais, é evidente que o poder do petrodólar está em declínio.
TRUMP REAGE
Isso reflete o declínio lento, porém constante, do dólar em termos de importância global nas últimas décadas. A participação do dólar nas reservas cambiais é atualmente a menor em 25 anos e, embora continue sendo a moeda predominante no comércio global, essa posição também começa a se deteriorar.
A administração Trump, no entanto, está reagindo. Embora a Casa Branca possa querer uma taxa de câmbio do dólar mais baixa, ela está empenhada em manter sua posição dominante nos mercados globais, e os recentes acontecimentos na Venezuela podem fazer parte desse esforço mais amplo.
Até Trump retornar ao cargo há quase um ano, parecia haver pouco interesse em Washington em resistir à onda global de diversificação impulsionada por fatores geopolíticos, que busca reduzir a dependência do dólar.
Mas o governo Trump adotou uma postura mais firme. Está promovendo "stablecoins" atreladas ao dólar para fortalecer o papel do dólar nos pagamentos digitais e nas finanças globais de forma mais ampla. Também ameaçou impor tarifas a países que buscam desenvolver alternativas ao dólar, principalmente o grupo BRICS de nações em desenvolvimento.
Obter certo grau de controle sobre as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo pode fazer parte desse esforço, especialmente porque envolve afastar a China e a Rússia – aliadas do regime de Maduro – nesse processo.
"O dólar ainda é a moeda chave no mercado de petróleo, e os EUA estão tentando preservar isso", diz Hung Tran, pesquisador sênior não residente do Atlantic Council.
Richard Werner, Professor de Sistemas Bancários e Economia na Universidade de Winchester, concorda que as ações de Washington na Venezuela provavelmente visam fortalecer o sistema do petrodólar.
Em última análise, porém, ele acredita que essas ações extremas podem ser vistas como um sinal de "desespero" que poderia acelerar o declínio do petrodólar caso as nações BRICS e outros países do "Sul Global" se oponham ao uso da força militar por Washington para manter o domínio de sua moeda.
Isso, claro, ainda está por se ver.
(As opiniões aqui expressas são de responsabilidade do autor (link), colunista da Reuters)
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