
Por Jamie McGeever
ORLANDO, Flórida, 30 Dez (Reuters) - Este foi um dos anos mais turbulentos da história recente para os mercados financeiros, à medida que o presidente dos EUA, Donald Trump, (link) rompeu com as regras econômicas que moldaram o mundo multilateral e globalizado por décadas.
Embora a estratégia do presidente tenha sido bastante anunciada, seu impacto nos mercados, no crescimento e na formulação de políticas acabou sendo muito diferente do que a maioria dos analistas de Wall Street esperava.
A guerra comercial global (link) de 2025 não deveria ter sido uma surpresa. Trump fez campanha prometendo tornar a indústria manufatureira norte-americana grandiosa novamente.
"Eu adoro tarifas", disse Trump em um comício em Las Vegas duas semanas antes da eleição. "Eu posso fazer qualquer pessoa fazer qualquer coisa através do uso de tarifas."
Trump disse que obrigaria países de todo o mundo a pagar por "explorarem" os EUA com práticas comerciais "desleais" – e foi exatamente isso que ele fez em 2 de abril, o chamado "Dia da Libertação".
Apesar de meses de alertas, analistas e investidores ainda foram pegos de surpresa pela implementação caótica de uma série de tarifas altíssimas.
O índice S&P 500 .SPX perdeu quase 15% nos três dias seguintes ao Dia da Libertação, mas recuperou a maior parte dessa perda nos dias seguintes, depois que Trump adiou alguns dos elementos mais extremos de sua principal política.
Mesmo após o recuo parcial de Trump, o cenário comercial foi transformado. A taxa efetiva de tarifas de importação dos EUA no final do ano passado era de cerca de 2,5%. Agora, está em quase 17%, de acordo com o Laboratório de Orçamento de Yale, a mais alta desde 1935.
O que talvez seja mais surpreendente é o quão pouco a maioria dos mercados parece se importar.
A previsão era de que o S&P 500 fechasse o ano em 6.500 pontos, segundo a projeção consensual da Reuters para o final de 2024. Isso implicava uma alta de cerca de 9%. O índice está a caminho de dobrar essa valorização, buscando alcançar os 7.000 pontos.
QUEDA HISTÓRICA DO DÓLAR
Quer encontrar a maior gafe de previsão do ano? Não precisa procurar mais longe do que o dólar norte-americano (USD). A moeda norte-americana despencou 12% em relação a uma cesta de moedas principais no primeiro semestre de 2025, seu pior início de ano desde que o presidente Richard Nixon retirou os EUA do padrão-ouro e iniciou a era das taxas de câmbio flutuantes, há mais de meio século.
Isso não era para acontecer. Esperava-se que as tarifas protecionistas e a relocalização da produção de Trump fossem inflacionárias e, portanto, mantivessem a política monetária relativamente restritiva. Isso, por sua vez, apoiaria a entrada de capital estrangeiro nos EUA e fortaleceria o dólar, ou pelo menos era essa a visão consensual.
Mas a recuperação nunca se materializou, em grande parte porque muitos investidores globais se opuseram à controversa agenda política de Trump e reduziram sua exposição ao dólar.
Investidores estrangeiros ainda buscavam exposição ao boom da tecnologia norte-americana (link) e à revolução da inteligência artificial (link), então eles investiram pesado em ações americanas, mas – rompendo com o passado recente – protegeram-se contra o risco cambial.
Como resultado, este ano apresentou um fenômeno raro: um boom em Wall Street e um deslizamento do dólar.
O iuan também se valoriza.
O iuan chinês – e, em muitos aspectos, a própria China – foi outro grande erro de previsão.
No início do ano, o consenso entre os analistas era de que Pequim retaliaria contra as tarifas de Washington, ao desvalorizarem o iuan, visam impulsionar as exportações, especialmente considerando as pressões deflacionárias que afetam a economia chinesa.
Mas o iuan se moveu CNY= na direção oposta, pelo menos em relação ao dólar. A moeda chinesa deverá encerrar o ano em seu nível mais forte em 14 meses, muito próxima da importantíssima marca de 7,00 iuanes por dólar.
Essa valorização, contudo, não afetou negativamente o mercado de exportação da China. Embora as exportações para os EUA tenham caído quase 20% este ano, as exportações para o resto do mundo mais do que compensaram essa queda, elevando o superávit comercial chinês para mais de US$ 1 trilhão em 2025 e refutando mais uma regra prática da economia. Em vez de se concentrar em impulsionar a demanda interna, a China parece tão comprometida como sempre com um modelo de crescimento baseado nas exportações.
A SOMBRA DE TRUMP
Por último, mas não menos importante, temos a Reserva Federal (link).
Há um ano, os mercados futuros previam apenas um corte completo de 0,25 ponto percentual na taxa de juros em 2025, mas o Fed implementou três, todos nos últimos quatro meses do ano.
Os céticos podem atribuir essa postura conciliadora à intensa pressão política exercida sobre o presidente Jerome Powell, por parte da Casa Branca. Contudo, se a interferência política for a culpada, os mercados não pareceram excessivamente preocupados.
A independência do Fed é supostamente a pedra angular do sistema financeiro dos EUA, mas as ações de Trump quase não suscitaram qualquer reação dos investidores, exceto por alguns tumultos em maio, quando Trump indicou que poderia demitir Powell.
De fato, as ações americanas, o dólar e os títulos do Treasury de 10 anos subiram no segundo semestre do ano, mesmo com o aumento da influência do presidente sobre o Fed.
Por ora, os investidores parecem estar se acostumando com a nova estratégia econômica de Trump. Será que isso mudará no ano que vem? Muitas das questões que dominaram 2025 — preocupações com o comércio, uma bolha da inteligência artificial, o aumento da dívida pública e a independência dos bancos centrais — ainda estão bem presentes em 2026. Pode ser mais um ano turbulento.
(As opiniões aqui expressas são do autor, colunista da Reuters.)
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