tradingkey.logo

OBITUÁRIO-Líder do Irã morre aos 86 anos em ataque dos EUA e Israel

Reuters1 de mar de 2026 às 04:10

Por Parisa Hafezi

- Os 36 anos de governo do aiatolá Ali Khamenei transformaram o Irã em uma poderosa força anti-EUA, espalhando sua influência militar pelo Oriente Médio, enquanto usava mão de ferro para esmagar repetidos protestos internos.

Ele foi morto no sábado, aos 86 anos, anunciou a mídia estatal iraniana, em ataques aéreos de Israel e dos EUA que pulverizaram seu complexo no centro de Teerã, após décadas de tentativas fracassadas de resolver diplomaticamente a disputa sobre o programa nuclear iraniano.

Inicialmente considerado fraco e indeciso, Khamenei parecia uma escolha improvável para líder supremo após a morte do carismático aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica do Irã. Mas a ascensão de Khamenei ao ápice da estrutura de poder do país lhe conferiu um controle rígido sobre os assuntos da nação.

Khamenei foi "um acidente da história" que passou de "um presidente fraco a um líder supremo inicialmente fraco, até se tornar um dos cinco iranianos mais poderosos dos últimos 100 anos", disse Karim Sadjadpour, da Carnegie Endowment for International Peace, à Reuters.

O aiatolá criticou Washington durante todo o seu governo, continuando a lançar farpas mesmo após o início do segundo mandato de Donald Trump como presidente dos EUA, em 2025.

À medida que uma nova onda de protestos se espalhava pelo Irã, com slogans como "Morte ao ditador", e enquanto Trump ameaçava intervir, Khamenei prometeu, em janeiro, que o país não "cederia ao inimigo".

O comentário era típico do ferozmente antiocidental Khamenei, no poder desde 1989.

Ao manter a postura intransigente de Khomeini, o primeiro líder supremo da República, Khamenei reprimiu as ambições de uma sucessão de presidentes eleitos com espírito independente que buscavam políticas mais abertas, tanto interna quanto externamente.

Nesse processo, ele garantiu o isolamento do Irã, dizem os críticos.

SUA PALAVRA ERA LEI

Khamenei negou por muito tempo que o programa nuclear iraniano tivesse como objetivo a produção de uma arma atômica, como alegava o Ocidente. Em 2015, ele apoiou cautelosamente um acordo nuclear entre as potências mundiais e o governo do pragmático presidente Hassan Rouhani, que restringia o programa nuclear do país em troca do alívio das sanções. O acordo, arduamente conquistado, resultou em uma flexibilização parcial do isolamento econômico e político do Irã.

Mas a hostilidade de Khamenei em relação aos EUA permaneceu inabalável, intensificando-se em 2018, quando o primeiro governo Trump retirou-se do acordo nuclear e reimpôs as sanções para sufocar as indústrias de petróleo e transporte marítimo do Irã.

Após a retirada dos EUA, Khamenei alinhou-se com os apoiadores da linha dura que criticavam a política de apaziguamento de Rouhani em relação ao Ocidente.

Enquanto Trump pressionava o Irã a concordar com um novo acordo nuclear em 2025, Khamenei condenou "os líderes rudes e arrogantes da América". "Quem são vocês para decidir se o Irã deve ou não enriquecer urânio?", questionou.

Khamenei frequentemente denunciava "o Grande Satã" em seus discursos, tranquilizando os linha-dura para quem o sentimento anti-EUA estava no cerne da revolução de 1979, que forçou o último xá do Irã ao exílio.

O Irã testemunhou grandes protestos liderados por estudantes em 1999 e 2002. Mas a autoridade de Khamenei foi posta à prova de forma mais profunda em 2009, quando os resultados contestados de uma eleição presidencial que ele havia validado desencadearam violentos distúrbios nas ruas, alimentando uma crise de legitimidade que persistiu até sua morte.

Em 2022, Khamenei reprimiu com violência os manifestantes enfurecidos com a morte da curda-iraniana Mahsa Amini, de 22 anos, que morreu sob custódia da polícia moral em setembro daquele ano.

Diante de uma das turbulências mais intensas desde a revolução, Khamenei culpou inimigos ocidentais e, após meses de protestos, recorreu ao enforcamento de manifestantes e à exibição de seus corpos, suspensos por guindastes.

Os iranianos entenderam a mensagem.

Como líder supremo, a palavra de Khamenei era lei. Ele herdou enormes poderes, incluindo o comando das forças armadas e a autoridade para nomear muitas figuras importantes, entre elas os chefes do judiciário, das agências de segurança e da rádio e televisão estatais.

Nomeou aliados como comandantes da Guarda Revolucionária de elite.

Como autoridade máxima no complexo sistema iraniano de governo clerical e democracia limitada, Khamenei buscou por muito tempo garantir que nenhum grupo, mesmo entre seus aliados mais próximos, reunisse poder suficiente para desafiá-lo e sua postura anti-EUA.

Acadêmicos fora do Irã descreveram-no como um ideólogo reservado e temeroso de traição -- uma ansiedade alimentada por uma tentativa de assassinato em 1981 que paralisou seu braço direito.

Organizações internacionais e ativistas criticaram repetidamente as violações dos direitos humanos no Irã. Teerã afirmava ter o melhor histórico de direitos humanos do mundo muçulmano.

UMA ASCENSÃO IMPROVÁVEL AO PODER

Ali Khamenei nasceu em Mashhad, no nordeste do Irã, em abril de 1939. Seu comprometimento religioso era evidente desde que se tornou clérigo aos 11 anos. Estudou no Iraque e em Qom, a capital religiosa do Irã.

Seu pai, um estudioso religioso de ascendência azeri, era um clérigo tradicionalista que se opunha à mistura de religião e política. Em contraste, seu filho abraçou a causa revolucionária islâmica.

"Ele (o pai de Khamenei) se apresentava como um clérigo modernista ou progressista", disse Mahmoud Moradkhani, um sobrinho que se opõe ao governo de Khamenei e vive exilado. Ao contrário do filho, "ele não fazia parte dos fundamentalistas", afirmou Moradkhani.

Em 1963, Khamenei cumpriu a primeira de muitas penas de prisão quando, aos 24 anos, foi detido por atividades políticas. Mais tarde, naquele mesmo ano, ele foi preso por 10 dias em Mashhad, onde sofreu torturas severas, segundo sua biografia oficial.

Após a queda do xá, Khamenei assumiu diversos cargos na República Islâmica. Como vice-ministro da Defesa, aproximou-se dos militares e foi uma figura-chave na guerra de 1980-88 contra o vizinho Iraque, que ceifou cerca de um milhão de vidas.

Orador habilidoso, foi nomeado por Khomeini como líder da oração de sexta-feira em Teerã.

Havia questionamentos sobre sua ascensão rápida e sem precedentes. Ele venceu a presidência com o apoio de Khomeini -- o primeiro clérigo a ocupar o cargo -- e foi uma escolha surpreendente como sucessor de Khomeini, visto que não possuía o apelo popular nem as credenciais clericais superiores de Khomeini.

EXPANDINDO A INFLUÊNCIA DO IRÃ

Seus laços com a poderosa Guarda Revolucionária renderam frutos em 2009. Naquele ano, a força reprimiu protestos após a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em meio a acusações de fraude eleitoral feitas pela oposição.

Ele também comandava um vasto império financeiro por meio da Setad, uma organização fundada por Khomeini, mas que se expandiu enormemente sob o governo de Khamenei, com ativos avaliados em dezenas de bilhões de dólares.

Khamenei expandiu a influência iraniana na região, fortalecendo milícias xiitas no Iraque e no Líbano e apoiando o então presidente Bashar al-Assad com o envio de milhares de soldados para a Síria.

Ele gastou bilhões ao longo de quatro décadas com esses aliados -- o "Eixo da Resistência", que também incluía o Hamas, o grupo islâmico palestino, e os houthis do Iêmen -- para se opor ao poder israelense e americano no Oriente Médio.

Mas em 2024, Khamenei viu essas alianças se desfazerem e a influência regional do Irã encolher, com a deposição de Assad e uma série de derrotas infligidas por Israel ao Hezbollah no Líbano e ao Hamas em Gaza, incluindo o assassinato de seus líderes.

Sob o governo de Khamenei, Irã e Israel travaram uma guerra velada por anos, com Israel assassinando cientistas nucleares e comandantes da Guarda Revolucionária de Teerã.

Essa guerra veio à tona durante a guerra de Israel contra o Hamas em Gaza a partir de 2023. Em abril de 2024, o Irã lançou centenas de mísseis e drones contra Israel depois que este bombardeou o complexo da embaixada iraniana em Damasco. Israel respondeu com ataques em território iraniano.

Mas isso foi apenas um prelúdio para junho de 2025, quando as forças armadas israelenses lançaram centenas de caças contra alvos nucleares e militares iranianos, bem como contra altos funcionários. O ataque surpresa provocou uma saraivada de mísseis em ambas as direções, transformando um conflito latente em uma guerra total. Os EUA juntaram-se à ofensiva aérea contra o Irã, que durou 12 dias.

Os EUA e Israel haviam alertado que atacariam novamente se o Irã prosseguisse com seus programas nucleares e de mísseis balísticos e, no sábado, lançaram o ataque mais ambicioso contra alvos iranianos em décadas.

Negociações entre autoridades americanas e iranianas ocorreram até quinta-feira, mas altos funcionários americanos afirmaram que o Irã não estava disposto a abrir mão de sua capacidade de enriquecer urânio, que os iranianos alegavam desejar para energia nuclear, mas que, segundo autoridades americanas, permitiria ao país construir uma bomba nuclear.

Na frente diplomática, Khamenei rejeitou qualquer normalização das relações com os Estados Unidos. Ele argumentou que Washington havia apoiado grupos radicais como o Estado Islâmico para inflamar uma guerra sectária na região.

Como todas as autoridades iranianas, Khamenei negou qualquer intenção de desenvolver armas nucleares e chegou ao ponto de emitir um decreto islâmico, ou fatwa, em meados da década de 1990 sobre a "produção e o uso" de armas nucleares, afirmando: "É contrário aos nossos princípios islâmicos".

Ele também apoiou uma fatwa emitida por Khomeini em 1989, que incitava os muçulmanos a assassinarem o escritor indiano Salman Rushdie após a publicação de seu romance "Os Versos Satânicos".

O site oficial de Khamenei confirmou a validade do decreto de morte em 2017. Cinco anos depois, Rushdie foi esfaqueado enquanto proferia uma palestra pública em Nova York. O escritor ficou gravemente ferido, mas sobreviveu. O agressor, que foi condenado a 25 anos de prisão em 2025 por tentativa de homicídio, não testemunhou no julgamento.

O falecido aiatolá deixa uma República Islâmica em meio à incerteza, com ataques de Israel e dos Estados Unidos, além de crescente dissidência interna, especialmente entre as gerações mais jovens.

"Eu só quero viver uma vida pacífica e normal... Em vez disso, eles (os governantes) insistem em um programa nuclear, apoiam grupos armados na região e mantêm a hostilidade contra os Estados Unidos", disse Mina, de 25 anos, à Reuters por telefone, de Kuhdasht, na província de Lorestan, no oeste do país, no início de 2026.

"Essas políticas podem ter feito sentido em 1979, mas não hoje", acrescentou a jovem, recém-formada na universidade e desempregada. "O mundo mudou."

((Tradução Redação São Paulo 55 11 56447751)) REUTERS RS

Aviso legal: as informações fornecidas neste site são apenas para fins educacionais e informativos e não devem ser consideradas consultoria financeira ou de investimento.

Artigos relacionados

KeyAI