
Por Parisa Hafezi e Phil Stewart e Andrew Mills e Emily Rose
WASHINGTON/TEL AVIV/DUBAI, 28 Fev (Reuters) - Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã neste sábado, visando seus principais líderes e pedindo a derrubada de seu governo, enquanto o Irã respondeu com mísseis disparados contra Israel e países vizinhos do Golfo.
O presidente Donald Trump, que na maior aposta de política externa de sua presidência lançou a guerra contra um inimigo com o qual Washington luta há gerações, disse que os ataques visavam acabar com uma ameaça à segurança e garantir que o Irã não pudesse desenvolver uma arma nuclear.
Ele pediu às forças de segurança iranianas que depusessem as armas e convidou os iranianos a derrubarem o governo assim que os bombardeios terminassem.
Teerã classificou os ataques, que começaram pela manhã e atingiram alvos em diferentes áreas do país, como não provocados e ilegais. A emissora iraniana Al-Alam informou que o líder supremo, Aiatolá Ali Khamenei -- que ainda não havia se pronunciado até a noite de sábado -- faria um discurso em breve.
Em cidades por todo o Irã, as explosões causaram pânico generalizado. Moradores correram para buscar seus filhos na escola e fugir de áreas que poderiam ser alvos.
"Estamos com medo, estamos apavorados. Meus filhos estão tremendo, não temos para onde ir, vamos morrer aqui", disse Minou, de 32 anos e mãe de dois filhos, chorando enquanto falava à Reuters por telefone da cidade de Tabriz, no norte do país.
O Irã respondeu lançando mísseis contra Israel e contra vários países árabes do Golfo, aliados dos Estados Unidos, que abrigam bases americanas.
O Irã emitiu um alerta à navegação informando que o Estreito de Ormuz, a estreita passagem por onde passa cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo, havia sido fechado. Os investidores previram uma forte alta nos preços do petróleo. As companhias aéreas cancelaram voos no Oriente Médio.
Teerã prometeu uma resposta mais contundente em breve, com um alto comandante da Guarda Revolucionária Iraniana, Ebrahim Jabbari, afirmando que até então o país havia utilizado apenas "mísseis descartados" e que em breve revelaria armamentos ainda não previstos.
O Conselho de Segurança da ONU se reuniria em Nova York no sábado. O secretário-geral António Guterres pediu a cessação imediata das hostilidades.
As Forças Armadas de Israel afirmaram que seus pilotos atingiram centenas de alvos em todo o Irã, incluindo sistemas de defesa estratégicos já danificados em ataques no ano passado. Segundo o comunicado, três locais onde líderes estavam reunidos foram atingidos simultaneamente, e diversas figuras importantes foram mortas.
O ministro da Defesa do Irã, Amir Nasirzadeh, e o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammed Pakpour, foram mortos nos ataques israelenses, de acordo com três fontes familiarizadas com o assunto.
A primeira onda de ataques, denominada "OPERAÇÃO FÚRIA ÉPICA" pelo Pentágono, teve como alvo principal autoridades iranianas, segundo uma fonte familiarizada com o assunto.
Um oficial israelense afirmou que Khamenei e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian foram alvos dos ataques, mas o resultado dos atentados não estava claro. Uma fonte com conhecimento do assunto havia dito anteriormente à Reuters que Khamenei não estava em Teerã e havia sido transferido para um local seguro.
Uma fonte iraniana próxima ao governo disse que vários comandantes de alto escalão da Guarda Revolucionária do Irã e autoridades políticas foram mortos.
Além disso, uma escola primária feminina na cidade de Minab, no sul do Irã, foi atingida, matando 85 pessoas, segundo o promotor local citado pela mídia estatal. A Reuters não conseguiu confirmar as informações de forma independente. O exército israelense não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
TRUMP DIZ QUE BOMBAS CAIRÃO EM TODOS OS LUGARES
Em uma mensagem de vídeo publicada nas redes sociais, Trump citou a disputa de décadas entre Washington e o Irã e os ataques iranianos, que remontam à tomada da embaixada dos EUA em Teerã durante a Revolução Islâmica de 1979, que levou os clérigos ao poder.
Trump afirmou que o objetivo era "eliminar as ameaças iminentes do regime iraniano". Ele pediu aos iranianos que permanecessem em seus abrigos, pois "bombas cairão por toda parte", mas acrescentou: "Quando terminarmos, assumam o controle do governo. Ele será de vocês. Esta será provavelmente a única chance que terão por gerações."
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que o ataque conjunto entre EUA e Israel "criará as condições para que o bravo povo iraniano tome as rédeas do próprio destino" e "se liberte do jugo da tirania".
Os líderes religiosos do Irã já se encontravam em uma posição delicada após as manifestações antigovernamentais em massa de janeiro, que levaram a uma repressão que resultou na morte de milhares de pessoas, no pior episódio de agitação interna desde a revolução de 1979.
Manifestantes voltaram às ruas nos últimos dias em memória das vítimas do mês anterior.
As operações militares israelenses nos últimos dois anos já mataram alguns dos altos oficiais militares do Irã e enfraqueceram severamente várias das forças aliadas de Teerã, antes temidas, no Oriente Médio.
Após Israel bombardear o Irã em uma guerra aérea de 12 dias em junho passado, com a participação dos Estados Unidos, os EUA e Israel alertaram que atacariam novamente se o Irã prosseguisse com seus programas nucleares e de mísseis balísticos. As ameaças foram reforçadas nas últimas semanas por um aumento da presença militar dos EUA na região, mesmo enquanto autoridades iranianas e americanas mantinham negociações nucleares.
Eyal Zamir, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, afirmou que, nos últimos meses, esteve envolvido na preparação de planos de batalha conjuntos contra o Irã, em coordenação com altos líderes militares dos EUA. Um oficial da defesa israelense disse que a data de lançamento foi definida semanas atrás.
MÍSSEIS DISPARADOS CONTRA OS ESTADOS ÁRABES DO GOLFO
Os mercados de petróleo têm acompanhado de perto o impasse entre Washington e Teerã para tentar determinar se o fornecimento será afetado. Jorge Leon, chefe de análise geopolítica da Rystad Energy, previu que os preços poderiam subir de US$10 a US$20 por barril na abertura dos mercados na segunda-feira, a menos que houvesse sinais de desescalada.
O Irã, terceiro maior produtor da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), bombeia cerca de 4% do suprimento global de petróleo, e uma parcela muito maior é transportada por sua costa através do estreito que sai do Golfo Pérsico.
A Guarda Revolucionária do Irã afirmou que todas as bases e interesses dos EUA na região estavam ao alcance do Irã e que a retaliação iraniana continuaria até que "o inimigo seja decisivamente derrotado".
Em Israel, sirenes e alertas por celular fizeram com que os israelenses corressem para abrigos antiaéreos enquanto o Irã lançava uma série de ataques com mísseis. Não houve relatos imediatos de danos graves ou vítimas.
Fortes estrondos foram ouvidos em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, produtora de petróleo e aliada próxima dos EUA, e várias explosões foram ouvidas em Dubai, a capital comercial, onde um dos luxuosos bairros hoteleiros da cidade também foi atingido.
Nada AlGarhy, de 30 anos, disse que ela e o marido estavam no hotel Waldorf Astoria, no luxuoso complexo Palm Jumeirah, em Dubai, para o Iftar, a refeição noturna durante o mês sagrado do Ramadã, quando ouviram uma forte explosão.
O Bahrein afirmou que o centro de serviços da Quinta Frota dos EUA -- base das forças navais americanas na região -- foi alvo de um ataque com mísseis. Imagens de vídeo mostraram uma densa coluna de fumaça cinza subindo perto da costa do país.
O Catar afirmou ter abatido todos os mísseis que tinham o país como alvo e que tinha o direito de retaliar. O Kuweit confirmou um ataque com mísseis contra uma base militar americana em seu território.
((Tradução Redação São Paulo 55 11 56447751)) REUTERS RS