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Após morte de líder do narcotráfico, cartéis usam notícias falsas para espalhar medo no México

Reuters24 de fev de 2026 às 13:25

Por Laura Gottesdiener e Stefanie Eschenbacher

- Depois que as forças mexicanas mataram o líder de cartel mais procurado do país no domingo, relatos falsos de violência espetacular se espalharam pelas redes sociais, alimentados pelo que os pesquisadores dizem ter sido uma campanha de propaganda coordenada pelo crime organizado.

Houve de fato distúrbios em muitas partes do México, onde apoiadores de El Mencho, líder do Cartel Jalisco Nova Geração, montaram bloqueios nas estradas, incendiaram ônibus e lojas e atacaram postos de gasolina em retaliação ao assassinato.

Mas online, as coisas pareciam ainda piores. Entre as notícias falsas: o aeroporto de Guadalajara foi tomado por assassinos. Um avião na pista estava em chamas. Fumaça saía de uma igreja e de vários prédios na cidade de Puerto Vallarta, popular entre os turistas.

Essas imagens, que foram analisadas pela Reuters, eram falsas, mas foram compartilhadas dezenas de milhares de vezes.

A desinformação prolifera rotineiramente após grandes eventos noticiosos, especialmente desde o advento da inteligência artificial.

Especialistas afirmaram que, no caso do assassinato de El Mencho, as notícias falsas estavam sendo espalhadas a uma velocidade surpreendente, não apenas por usuários desavisados, mas também, em alguns casos, pelo próprio cartel, em um esforço para fazer com que sua onda de violência retaliatória parecesse maior e mais aterrorizante do que realmente era.

“Eles estão tentando mostrar que o governo mexicano não tem controle sobre o país”, disse Jane Esberg, professora assistente da Universidade da Pensilvânia, que estuda como os grupos criminosos mexicanos usam as redes sociais.

Ela acrescentou que essa estratégia ajudou a criar uma narrativa de que o cartel tinha presença em todo o país, mas dificultou estabelecer a escala da violência e o que as forças de segurança estavam enfrentando.

Quando questionado por um repórter sobre contas nas redes sociais ligadas ao cartel que divulgam notícias falsas, o secretário de Segurança do México, Omar García Harfuch, disse na segunda-feira que as autoridades já identificaram “várias contas” e que fariam uma investigação mais profunda para determinar quais têm “relações diretas com um grupo do crime organizado”.

Ele acrescentou que havia outras contas “dedicadas a espalhar mentiras”, mas que não tinham nenhuma ligação criminosa comprovada.

A presidente mexicana Claudia Sheinbaum afirmou que as autoridades estavam trabalhando rapidamente para refutar as informações falsas e que havia “muitas, muitas notícias falsas” circulando após o assassinato de El Mencho.

FORMAÇÃO DA OPINIÃO PÚBLICA

Os cartéis mexicanos há muito tempo usam as redes sociais para fins de propaganda, desde difamar rivais até divulgar os esforços comunitários dos grupos criminosos, como a distribuição de ajuda durante a pandemia do coronavírus.

O material falso tradicionalmente usado pelos grupos criminosos do México tem sido de baixa tecnologia: vídeos reciclados dos cartéis de anos anteriores, por exemplo, ou imagens violentas de conflitos distantes em outros continentes, disseram os pesquisadores.

Mas o surgimento de conteúdo gerado por IA agora permitiu que os cartéis produzissem propaganda de notícias falsas mais criativas.

Enquanto isso, o surgimento de influenciadores do narcotráfico — personalidades das redes sociais que conquistaram muitos seguidores e usam suas plataformas para glorificar e até promover o crime organizado — abriu outro caminho para a propaganda nos últimos anos.

Essas campanhas de desinformação podem ser particularmente prejudiciais no México, onde a violência dificulta o acesso dos jornalistas a partes do país para reportar no local e separar a verdade da ficção, disse Esberg.

Mas ela e outros especialistas também alertaram que muitas vezes é difícil determinar com certeza quais contas ou blogs estão ligados aos cartéis e espalhando notícias falsas.

Pablo Calderon, professor associado de política e relações internacionais da Northeastern University London, disse que os cartéis usam as redes sociais para ampliar sua imagem e poder e para moldar a opinião pública, inclusive por meio de desinformação.

“Domingo foi um bom dia para as forças de segurança mexicanas”, afirmou ele. “Mas o crime organizado conseguiu mudar a narrativa, afastando-a da (operação militar) e levando-a ao caos.”

(Reportagem de Laura Gottesdiener em Monterrey e Stefanie Eschenbacher na Cidade do México)

((Tradução Redação São Paulo))

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