
Por Trevor Hunnicutt e Simon Lewis e Steve Holland
WASHINGTON, 19 Fev (Reuters) - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na primeira reunião do seu Conselho da Paz, nesta quinta-feira, que as nações contribuíram com US$7 bilhões para um fundo de reconstrução de Gaza que visa reconstruir o enclave assim que o Hamas se desarmar, um objetivo que está longe de se tornar realidade.
O desarmamento dos militantes do Hamas e a retirada das tropas israelenses, o tamanho do fundo de reconstrução e o fluxo de ajuda humanitária para a população devastada pela guerra em Gaza estão entre as principais questões que provavelmente testarão a eficácia do conselho nos próximos meses.
A reunião em Washington ocorreu em meio a um esforço mais amplo de Trump para construir uma reputação de pacificador. Ela também aconteceu no momento em que os Estados Unidos ameaçam entrar em guerra contra o Irã e iniciaram um grande reforço militar na região, caso Teerã se recuse a desistir de seu programa nuclear.
Entre os membros fundadores do Conselho não estão alguns dos principais aliados ocidentais dos EUA, preocupados com o alcance da iniciativa.
Em uma série de anúncios no final de um longo e sinuoso discurso aos representantes de 47 nações, Trump disse que os Estados Unidos contribuirão com US$10 bilhões para o Conselho da Paz. Ele não disse de onde viria o dinheiro nem se iria solicitá-lo ao Congresso dos EUA.
MEMBROS PRINCIPALMENTE DO ORIENTE MÉDIO
Trump disse que as nações contribuintes levantaram US$7 bilhões como pagamento inicial para a reconstrução de Gaza. Entre as nações contribuintes estão Cazaquistão, Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Barein, Catar, Arábia Saudita, Uzbequistão e Kuweit, disse ele. Os membros são em sua maioria países do Oriente Médio, além de líderes de fora da região que podem estar buscando ganhar a simpatia de Trump.
As estimativas para a reconstrução de Gaza, que ficou em ruínas após dois anos de guerra, chegam a US$70 bilhões.
Trump propôs o conselho em setembro, quando anunciou seu plano para acabar com a guerra de Israel em Gaza. Mais tarde, ele deixou claro que a competência do conselho se expandiria além de Gaza para lidar com outros conflitos em todo o mundo, um ponto que ele reiterou na quarta-feira, dizendo que ele investigaria “pontos críticos” ao redor do mundo.
Trump disse que a Fifa arrecadará US$75 milhões para projetos relacionados ao futebol em Gaza e que a Organização das Nações Unidas contribuirá com US$2 bilhões para assistência humanitária.
O Conselho da Paz inclui Israel, mas não representantes palestinos. A sugestão de Trump de que o conselho poderia eventualmente abordar desafios além de Gaza gerou ansiedade de que isso poderia minar o papel da ONU como principal plataforma para a diplomacia global e a resolução de conflitos.
“Vamos fortalecer as Nações Unidas”, disse Trump, tentando acalmar seus críticos, mesmo que os Estados Unidos estejam em atraso nos pagamentos.
Trump disse que a Noruega sediaria um evento do Conselho de Paz, mas a Noruega esclareceu que não estava se juntando ao conselho.
IRÃ
Mesmo enquanto se apresentava como um homem de paz, Trump ameaçou o Irã.
Trump disse que em 10 dias saberá se um acordo é possível. “Temos que chegar a um acordo significativo”, afirmou.
Trump disse que vários países planejam enviar milhares de soldados para participar de uma Força Internacional de Estabilização que ajudará a manter a paz em Gaza quando for finalmente implantada.
O presidente indonésio, Prabowo Subianto, anunciou que seu país contribuirá com até 8.000 soldados para a força.
O plano para a força é começar a trabalhar em áreas controladas por Israel na ausência do desarmamento do Hamas. A força, liderada por um general norte-americano com um vice indonésio, começará na cidade de Rafah, controlada por Israel, e treinará uma nova força policial, com o objetivo final de preparar 12.000 policiais e ter 20.000 soldados.
DESARMAMENTO DO HAMAS É QUESTÃO FUNDAMENTAL
O Hamas, temeroso de represálias israelenses, tem relutado em entregar armas como parte do plano de 20 pontos de Trump para Gaza, que trouxe um frágil cessar-fogo em outubro passado na guerra de dois anos em Gaza.
Trump disse que espera que não seja necessário usar a força para desarmar o Hamas. Ele afirmou que o Hamas prometeu se desarmar e que “parece que eles vão fazer isso, mas teremos que descobrir”.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse em Israel que o Hamas será desarmado de uma forma ou de outra. “Muito em breve, o Hamas enfrentará um dilema: desarmar-se pacificamente ou ser desarmado à força”, disse ele.
Em Gaza, o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, disse em um comunicado que o verdadeiro teste do Conselho da Paz “reside em sua capacidade de obrigar a ocupação a interromper suas violações do cessar-fogo, obrigá-la a cumprir suas obrigações e iniciar um esforço genuíno de ajuda humanitária e lançar o processo de reconstrução”.
A reunião do Conselho da Paz teve o clima de um comício da campanha de Trump, com música alta de sua eclética lista de reprodução, que incluía Elvis Presley e os Beach Boys. Os participantes receberam bonés vermelhos de Trump.
O Hamas, que retomou a administração do enclave em ruínas, diz que está pronto para entregar o poder a um comitê de tecnocratas palestinos apoiado pelos EUA e liderado por Ali Shaath, mas que Israel não permitiu que o grupo entrasse em Gaza. Israel ainda não se pronunciou sobre essas afirmações.
Nikolay Mladenov, um búlgaro com um papel importante no Conselho de Paz, disse na reunião que 2.000 palestinos se inscreveram para ingressar em uma nova força policial palestina de transição.
“Temos que acertar isso. Não há plano B para Gaza. O plano B é voltar à guerra. Ninguém aqui quer isso”, disse o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.
(Reportagem de Trevor Hunnicutt, Steve Holland, Simon Lewis, Samia Nakhoul e Nidal al-Mughrabi; reportagem adicional de Steven Scheer e Omri Taasan)
((Tradução Redação São Paulo))
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