
Por Brad Brooks
AURORA, Estados Unidos, 12 Fev (Reuters) - O show do intervalo do Super Bowl do astro porto-riquenho Bad Bunny, que celebrou a cultura latina em espanhol, proporcionou um momento emocionante de orgulho cultural para muitos residentes hispânicos em Aurora, no Estado do Colorado, nos Estados Unidos, onde a vida cotidiana foi transformada pelo medo de batidas policiais e deportações de imigrantes.
O diversificado subúrbio de Denver tem estado na mira do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Durante a campanha eleitoral e desde que voltou ao cargo, Trump afirmou que a cidade foi tomada por membros de gangues venezuelanas, uma afirmação contestada pelos cidadãos e líderes locais.
As batidas policiais contra imigrantes aumentaram na cidade de 403.000 habitantes, onde os latinos representam mais de 31% da população. Muitos latinos que vivem lá, independentemente de seu status de imigração, dizem que se sentem sitiados, estigmatizados e atacados.
Neste que parece ser um momento sombrio, uma dúzia de moradores latinos de Aurora disseram em entrevistas que a apresentação de Bad Bunny — que Trump rotulou como "uma afronta à grandeza dos Estados Unidos" — parecia menos um simples entretenimento e mais uma tábua de salvação cultural de reconhecimento, um breve momento de visibilidade e orgulho.
"O fator medo dentro da comunidade hispânica está definitivamente presente — pessoas com documentos, pessoas sem documentos. Muitas pessoas têm medo de sair de casa, o moral da comunidade está muito baixo", disse William Herrera, gerente da Panaderia el Paisa, uma padaria popular que é um ponto de encontro do bairro.
"É por isso que o show do Bad Bunny foi tão bonito. Para ele representar os hispânicos no maior palco da América, em um momento em que todos os racistas estão tentando nos derrubar, para ele transmitir a mensagem de que o amor é mais forte que o ódio, isso me encheu de orgulho", disse Herrera. "Ele deu coragem a toda a comunidade."
Os moradores dizem que o medo na comunidade hispânica está mantendo as pessoas em casa. Algumas ruas parecem mais vazias, grandes festas de aniversário são menos comuns e churrascos lotados nos quintais agora são raros.
Em todo o território dos Estados Unidos, as preocupações com as batidas de agentes de imigração dominam as conversas diárias e forçam os hispânicos a serem cautelosos sobre onde vão, ao falar espanhol e ao serem visíveis em seus próprios bairros.
No salão de beleza de Mary Zuloaga, em Aurora, uma TV sintonizada na rede de língua espanhola Univisión exibia trechos do show de Bad Bunny na terça-feira, enquanto ela refletia sobre seu significado.
Nascida na Colômbia, Zuloaga, que está nos EUA desde o início dos anos 1980, disse que a comunidade latina já passou por momentos semelhantes de ansiedade, principalmente durante o governo do ex-presidente Ronald Reagan, e viu como esses medos moldaram negativamente o comportamento e a identidade coletivos.
Ela disse que o clima sob Trump é pior do que na década de 1980 e teme que sua língua ou aparência possam desencadear sua prisão e detenção, apesar de ser cidadã norte-americana.
Para Zuloaga, o fato de Bad Bunny se apresentar inteiramente em espanhol foi crucial, apesar das críticas de que isso alienava os falantes apenas de inglês.
"Ele mostrou que o governo pode aterrorizar nossa comunidade, mas não pode tirar nossa língua", disse Zuloaga. "Se deixarmos que façam isso, perderemos nossa identidade."
((Tradução Redação São Paulo))
REUTERS ES