
Por Milana Vinn e Isla Binnie e Charlie Conchie
11 Fev (Reuters) - Uma ampla liquidação de ações de empresas de software nos Estados Unidos está começando a travar negócios envolvendo fusões e aquisições e ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) no setor, já que a volatilidade torna os valores das companhias pouco confiáveis e potenciais compradores mais cautelosos, disseram cerca de uma dúzia de consultores financeiros e negociadores à Reuters.
A queda no valor das ações do setor, que já dura meses, se aprofundou na semana passada, com o índice S&P 500 de software e serviços .SPLRCIS registrando o pior desempenho em três meses desde maio de 2002, disseram estrategistas de ações da Evercore ISI.
Embora o setor tenha recuperado algumas perdas, ele ainda está cerca de 25% abaixo do recorde de 28 de outubro, enquanto o S&P 500 .SPX subiu 1%.
Banqueiros e investidores entrevistados atribuem a desaceleração nas fusões e aquisições e nos IPOs a alguns motivos relacionados.
Com as ações de empresas de software caindo acentuadamente, os parâmetros de avaliação de empresas semelhantes, como múltiplos de receita, estão se movendo muito rapidamente para que qualquer um dos lados fixe um preço, e os compradores temem pagar a mais por ativos que podem sofrer novas desvalorizações.
Os vendedores, por sua vez, relutam em negociar em níveis baixos. “Algumas pessoas não podem se dar ao luxo de vender na baixa”, disse Vincenzo La Ruffa, sócio-gerente da empresa de private equity Aquiline Capital Partners.
NEGOCIAÇÃO COM BASE NO MEDO
Por trás da volatilidade está a ansiedade em relação à inteligência artificial que está remodelando os modelos de negócio no setor de software, disseram os negociadores.
Investidores têm negociado com base no medo, disse Wally Cheng, chefe de fusões e aquisições globais da área de tecnologia do Morgan Stanley. “Tudo está em baixa e não tem havido uma abordagem muito ponderada e detalhada para identificar quem são os vencedores e os perdedores.”
Ele disse que a visão de um potencial comprador sobre os fundamentos de uma empresa pode não ter mudado, mas o prêmio que o comprador estava originalmente disposto a pagar se torna irrealisticamente alto após uma queda no preço das ações, a menos que os termos sejam reformulados.
O impacto da reavaliação já é visível nas negociações. A empresa de software na área de fintechs Brex fechou uma importante rodada de financiamento por volta do pico de outubro, com uma avaliação de mais de US$ 12 bilhões, mas foi vendida para a Capital One no mês passado por cerca de US$5,15 bilhões.
Outra provedora de software financeiro, a OneStream OS.O, abriu capital em julho de 2024 com uma avaliação de cerca de US$6 bilhões. A companhia valia cerca de US$4,6 bilhões quando a Reuters noticiou no início de novembro que ela estava considerando fechar capital. Em janeiro, a Hg Capital tornou a OneStream privada por cerca de US$6,4 bilhões, mal ultrapassando sua avaliação de IPO e oferecendo ganhos limitados para os investidores.
Mike Boyd, diretor global de fusões e aquisições do CIBC do Canadá, disse que chegar a um acordo sobre o preço é mais difícil quando o mercado está volátil, então negociar acordos se torna mais desafiador.
La Ruffa, da Aquiline Capital Partners, especializada em serviços financeiros e tecnologia, previu: “Nas próximas semanas no mercado, acreditamos que muitos negócios serão desfeitos. Alguns serão desacelerados, outros terão seus preços reajustados. Veremos mais ativos sem negociação do que com reajuste de preço.”
Várias empresas abertas de software estão sendo negociadas a cerca de uma vez sua receita futura ou menos, quando o setor normalmente exige um múltiplo várias vezes maior, disse Ron Eliasek, presidente do banco de investimentos Global TMT da Jefferies.
“Isso não é sustentável”, disse ele. “Veremos mais aquisições privadas ou uma melhora nas avaliações dessas empresas ao longo do tempo.”
A queda das ações se estendeu à Europa, derrubando os papéis da empresa britânica de análise RELX REL.L e da companhia holandesa de análise jurídica Wolters Kluwer em cerca de 20%.
O impacto é particularmente grave para IPOs. A Liftoff Mobile, apoiada pela Blackstone, decidiu adiar sua listagem “dadas as condições atuais do mercado”.
A empresa norueguesa de software Visma pode adiar uma potencial listagem de US$20 bilhões em Londres devido à liquidação de ações no setor, disseram duas fontes familiarizadas com o assunto.
O Morgan Stanley alertou na segunda-feira que o problema pode se espalhar para os mercados de crédito privados, onde as empresas de software representam cerca de 16% do mercado de empréstimos dos EUA, avaliado em US$1,5 trilhão.
INCERTEZA OU FUNDAMENTOS?
Jon Gray, presidente da Blackstone, disse em uma conferência recente em Nova York que a IA estimulou um exercício interno de avaliação de risco na empresa: “Analisamos todos os nossos portfólios — amarelo, vermelho, verde — onde temos o maior risco” com a disrupção da IA?
Outros pedem calma. Robert Smith, fundador da empresa de private equity Vista Equity Partners, focada em software, disse aos investidores em uma carta na segunda-feira que a IA “aprimorará o software, não o substituirá”.
“Sentimos que a volatilidade nas ações de empresas de software está sendo impulsionada principalmente pela queda na confiança e pela incerteza, não pelo desempenho dos fundamentos”, escreveu Smith.
O presidente-executivo do Goldman Sachs, David Solomon, disse na conferência da UBS Financial Services em Miami na terça-feira que os investidores podem estar reagindo de forma exagerada.
“A narrativa da última semana foi um pouco exagerada. Haverá vencedores e perdedores, e muitas empresas lidarão com isso muito bem”, disse ele.
E alguns investidores veem uma oportunidade de compra. Eliasek, da Jefferies, disse que vários parceiros de private equity ligaram para ele no final da semana passada querendo comprar empresas de software.
A mensagem que eles comunicaram: “Traga-nos suas melhores ideias”, disse ele.
((Tradução Redação São Paulo, 55 11 56447753))
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