tradingkey.logo

Retorno a Gaza tem toque agridoce para palestinos

Reuters6 de fev de 2026 às 19:31

Por Ramadan Abed e Nidal al-Mughrabi

- Eatedal Rayyan esperou por aquele momento por quase dois anos: um reencontro com o marido em Gaza, em meio aos sentimentos de saudade da família e da pátria, apesar da destruição generalizada causada pela guerra de dois anos no enclave.

Rayyan, de 29 anos, deixou Gaza com a mãe e três filhos em março de 2024, após sofrer uma lesão na perna que, segundo os médicos, poderia precisar de amputação se não fosse tratada. Ela foi uma das dezenas de milhares de pessoas que foram para o Egito nos primeiros meses do conflito.

Após meses de tratamento no Egito, Rayyan finalmente conseguiu andar novamente. Na quinta-feira, ela, a mãe e os filhos estavam entre um pequeno número de palestinos autorizados a retornar a Gaza após Israel reabrir a passagem fronteiriça de Rafah, praticamente fechada desde o início dos combates, em outubro de 2023.

"Anseio por voltar à minha terra natal, apesar de tudo o que aconteceu, do bombardeio e do fato de que voltarei a viver em uma barraca", disse Rayyan à Reuters do Egito antes de cruzar a fronteira, na quinta-feira.

A Reuters acompanhou sua viagem desde a cidade egípcia de Al-Arish, onde milhares de palestinos se refugiaram. Seus filhos — Hanan, de 8 anos, Ezz, 5, e Mohammad, 4 — sorriam de orelha a orelha enquanto arrumavam as malas com cobertores e casacos de inverno.

Hanan colocou um laço no cabelo, ansiosa pelo reencontro com o pai. "Vamos para Gaza!", gritavam as crianças, animadas, antes de partirem para a fronteira.

NENHUM PRÉDIO DE PÉ

Rayyan e seus filhos partiram na quinta-feira ao meio-dia para a passagem de Rafah, a cerca de 50km de Al-Arish. Uma vez lá, tiveram de passar por três postos de controle: um administrado pelo Egito, outro por autoridades palestinas e europeias e um terceiro pelas forças de segurança israelenses.

Um ônibus os levou então de Rafah, que as forças israelenses destruíram, despovoaram e mantiveram o controle após o acordo de cessar-fogo de outubro, para a cidade de Khan Younis, em território controlado pelo Hamas.

Era quase meia-noite quando Rayyan e sua família chegaram a Khan Younis, onde seu marido Ahmed os esperava ansiosamente. Os dois se abraçaram longamente. Ahmed beijou e abraçou os filhos. A menina, Hanan, agarrou-se à perna do pai.

Rayyan disse que sabia que grande parte de Gaza havia sido demolida na guerra, mas mesmo assim ficou profundamente chocada no retorno.

"Não há nenhum prédio em pé", disse Rayyan. "Tudo está destruído, destruído. Não há eletricidade nem nada."

A família deles tinha uma casa grande em Al-Saftawi, um distrito próximo à cidade de Gaza, no norte, mas ela foi destruída na guerra, disse Ahmed. Agora, eles devem morar em uma barraca em um acampamento na cidade de Gaza.

"Tentei de todas as maneiras possíveis e consegui três colchões para cinco pessoas dormirem", disse Ahmed.

"A VIDA EM GAZA AINDA É BONITA"

A passagem de Rafah é o único ponto de saída e entrada para quase todos os mais de 2 milhões de residentes de Gaza. Sua reabertura -- limitada -- na segunda-feira foi um elemento-chave do plano do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para encerrar a guerra entre Israel e o Hamas.

A expectativa era de que cerca de 50 pessoas atravessassem a passagem diariamente, mas os números reais têm sido muito menores. Na quinta-feira, apenas 21 palestinos, incluindo Rayyan e seus filhos, voltaram a entrar em Gaza, de acordo com as autoridades do enclave.

Aqueles que voltaram para Gaza afirmam que foram assediados e interrogados pelas forças israelenses e por membros de um grupo local apoiado por Israel. As forças armadas de Israel negam que isso tenha ocorrido.

"Havia algumas pessoas (que viajavam) conosco, como jovens, que sofreram abuso — por exemplo, amarraram suas mãos, vendaram seus olhos, humilharam-nas e continuaram interrogando-as", disse Rayyan.

Segundo ela, muitas pessoas perguntaram por que ela queria deixar o Egito e ir a Gaza, um lugar isolado e coberto de escombros, onde comida e água são escassas, a maioria da população está deslocada e as frequentes violações do cessar-fogo já mataram centenas de pessoas.

"É verdade que a vida no Egito era boa, todos eram gentis conosco", disse Rayyan.

"Mas ainda assim, você sente saudade do seu país, da sua família, dos seus parentes, do seu marido, da sua vida. Estar longe de casa é difícil. A vida em Gaza ainda é bonita, mesmo tendo sido destruída."

((Tradução Redação Brasília))

REUTERS MCM

Aviso legal: as informações fornecidas neste site são apenas para fins educacionais e informativos e não devem ser consideradas consultoria financeira ou de investimento.
KeyAI