
Por Olena Harmash
KIEV, 4 Fev (Reuters) - Autoridades ucranianas e russas encerraram um primeiro dia “produtivo” de novas negociações mediadas pelos EUA em Abu Dhabi, disse o principal negociador de Kiev nesta quarta-feira, enquanto os combates no maior conflito da Europa desde a Segunda Guerra Mundial continuavam.
As reuniões trilaterais de dois dias acontecem depois que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, disse que a Rússia havia explorado uma trégua energética apoiada pelos EUA na semana passada para estocar munições, atacando a Ucrânia com um número recorde de mísseis balísticos na terça-feira.
“O trabalho foi substantivo e produtivo, focado em medidas concretas e soluções práticas”, escreveu Rustem Umerov, chefe do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia, no X.
Uma autoridade dos EUA, que comentou sob condição de anonimato, também considerou as negociações produtivas e disse que elas continuariam na manhã de quinta-feira.
Zelenskiy, falando em seu discurso noturno em vídeo, disse que era fundamental que as negociações levassem à paz real e não oferecessem à Rússia uma nova oportunidade de continuar a guerra. Os parceiros da Ucrânia, disse ele, precisavam exercer mais pressão sobre Moscou.
“Isso deve ser sentido agora. O povo da Ucrânia deve sentir que a situação está realmente caminhando para a paz e o fim da guerra, e não para a Rússia usar tudo a seu favor e continuar os ataques”, disse Zelenskiy.
Zelenskiy também disse que a Ucrânia espera que as negociações levem a uma nova troca de prisioneiros em breve.
O presidente, entrevistado pelo canal de televisão francês France 2, disse que o número de soldados ucranianos mortos no campo de batalha como resultado da guerra com a Rússia era estimado em 55 mil.
Zelenskiy havia citado anteriormente um número de mais de 46 mil militares ucranianos mortos em uma entrevista à rede de televisão norte-americana NBC em fevereiro de 2025.
Pouco depois do início das negociações, as forças russas atacaram um mercado lotado no leste da Ucrânia com munições de fragmentação, matando pelo menos sete pessoas e ferindo 15, disse o governador da região de Donetsk, Vadym Filashkin.
Fotografias divulgadas mais cedo pelo Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos mostraram as três delegações sentadas em torno de uma mesa em forma de U, com autoridades norte-americanas sentadas no centro, incluindo o enviado especial Steve Witkoff e o genro do presidente dos EUA, Donald Trump, Jared Kushner.
Em Paris, fontes diplomáticas afirmaram que o diplomata mais graduado do presidente francês Emmanuel Macron, Emmanuel Bonne, se reuniu com autoridades russas no Kremlin na terça-feira.
Uma das fontes disse que o objetivo era dialogar sobre questões importantes, principalmente a Ucrânia, mas não deu mais detalhes.
PERMANECEM DIFERENÇAS IMPORTANTES EM PONTOS-CHAVE
O governo Trump tem pressionado Kiev e Moscou a encontrar um acordo para encerrar a guerra que já dura quatro anos, mas os dois lados continuam distantes em pontos-chave, apesar de várias rodadas de negociações com autoridades norte-americanas.
“A boa notícia é que, pela primeira vez em muito tempo, temos equipes técnicas militares da Ucrânia e da Rússia se reunindo em um fórum do qual também participaremos com nossos especialistas”, disse o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em Washington nesta quarta-feira. “Não quero dizer que as negociações por si só sejam um progresso, mas é bom que haja um envolvimento.”
As questões mais delicadas são as exigências de Moscou para que Kiev renuncie às terras que ainda controla e o destino da usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, localizada em uma área ocupada pela Rússia.
Moscou quer que Kiev retire suas tropas de toda a região de Donetsk, incluindo cidades fortemente fortificadas consideradas uma das defesas mais fortes da Ucrânia, como pré-condição para qualquer acordo.
A Ucrânia afirmou que o conflito deve ser congelado ao longo das atuais linhas de frente e rejeita qualquer retirada unilateral de suas forças.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse nesta quarta-feira que as tropas russas continuariam lutando até que Kiev tomasse “decisões” que pudessem pôr fim à guerra.
A Rússia ocupa cerca de 20% do território nacional da Ucrânia, incluindo a Crimeia e partes da região oriental de Donbas, tomadas antes da invasão de 2022. Analistas afirmam que a Rússia conquistou cerca de 1,5% do território ucraniano desde o início de 2024.
“A Rússia não está vencendo sua guerra contra a Ucrânia”, disse o ministro das Relações Exteriores ucraniano, Andrii Sybiha, ao meio de comunicação online Liga na terça-feira.
UCRAINOS SE OPÕEM A CONCESSÕES DOLOROSAS
Pesquisas mostram que a maioria dos ucranianos se opõe a um acordo que conceda mais terras a Moscou. Moradores de Kiev disseram à Reuters que estavam céticos quanto à possibilidade de novas negociações trazerem um grande avanço.
“Vamos torcer para que isso mude (alguma coisa), é claro. Mas não acredito que vá mudar nada agora”, disse Serhii, 38 anos, motorista de táxi. “Não vamos ceder, e eles também não vão ceder.”
A primeira rodada de negociações foi realizada nos Emirados Árabes Unidos no mês passado.
((Tradução Redação São Paulo))
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