
Por Steve Holland e Rami Ayyub e Nidal al-Mughrabi
DAVOS, Suíça/JERUSALÉM/CAIRO, 22 Jan (Reuters) - Os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira seus planos para uma "Nova Gaza", a ser reconstruída do zero para incluir torres residenciais, data centers e resorts à beira-mar, como parte do esforço do presidente Donald Trump para avançar com o cessar-fogo entre Israel e Hamas, abalado por repetidas violações.
Enquanto isso, na Faixa de Gaza, autoridades de saúde disseram que ataques aéreos israelenses mataram cinco pessoas nesta quinta-feira. Não houve comentário imediato de Israel sobre a violência, a última a abalar o acordo de trégua de outubro.
Trump transformou o cessar-fogo em uma iniciativa mais ampla, o "Conselho da Paz", com o objetivo de resolver conflitos em todo o mundo.
Após realizar nesta quinta-feira uma cerimônia de assinatura do conselho em Davos, na Suíça, Trump convidou seu genro Jared Kushner para apresentar os planos de desenvolvimento para as cidades e vilas densamente povoadas de Gaza agora em ruínas devido a dois anos de guerra.
"No início, estávamos pensando em uma zona livre e depois uma zona do Hamas", disse Kushner a uma plateia em Davos sobre os primeiros planos de Trump para reconstruir Gaza.
"E então dissemos: quer saber? Vamos planejar um sucesso catastrófico."
PLANO MESTRE
Kushner mostrou ao público uma apresentação de slides que mostrava um "plano mestre", exibido em um mapa codificado por cores com áreas reservadas para desenvolvimento residencial, data centers e parques industriais.
Os slides incluíam a imagem de um litoral mediterrâneo repleto de torres brilhantes, semelhantes às de Dubai ou Cingapura. Eles sugeriram que a reconstrução deve começar por Rafah, no sul, área sob total controle militar israelense.
Mas não abordaram questões fundamentais, como direitos de propriedade ou indenização para os palestinos que perderam casas, negócios e meios de subsistência durante a guerra. Também não disseram onde os palestinos deslocados poderiam viver durante a reconstrução.
Kushner não indicou de onde virá o financiamento para a reconstrução, que primeiro exigiria a remoção de cerca de 68 milhões de toneladas de entulho e destroços acumulados na guerra.
Segundo Kushner, deve ser realizada uma conferência em Washington nas próximas semanas "onde anunciaremos muitas das contribuições que serão feitas... pelo setor privado".
Os slides mostrados por Kushner eram quase idênticos aos vazados para o Wall Street Journal em dezembro. Na época, o jornal informou que os EUA haviam se oferecido para "ancorar" 20% do projeto de renovação, sem entrar em detalhes.
Trump lançou a ideia de transformar a Gaza, há muito empobrecida e dilapidada, na "Riviera do Oriente Médio", ideia que atraiu críticas dos palestinos.
PASSAGEM DE RAFAH
A apresentação de Kushner em Davos foi feita após os comentários de Ali Shaath, líder tecnocrata palestino apoiado por Washington para administrar o enclave, de acordo com o plano de 20 pontos de Trump para Gaza.
Um dos principais elementos não cumpridos do cessar-fogo foi a reabertura da principal passagem de Rafah, na fronteira de Gaza com o Egito, para a entrada e saída de palestinos. Shaath anunciou, por meio de um link de vídeo, que a passagem de Rafah deve ser aberta na próxima semana.
"A abertura de Rafah sinaliza que Gaza não está mais fechada para o futuro e para a guerra", disse Shaath.
Israel, que controla o lado de Gaza da passagem, rejeitou reabri-la até que o Hamas cumpra sua obrigação prevista no cessar-fogo de devolver os restos mortais do último refém mantido no território.
Após o anúncio de Shaath, uma fonte política israelense disse que está sendo feito um esforço especial para devolver os restos mortais de Ran Gvili e que Israel deve discutir a reabertura da passagem a partir da próxima semana.
VIOLÊNCIA PERSISTENTE
A próxima fase do plano de Trump para Gaza prevê o desarmamento do Hamas e o envio de forças internacionais de paz para o enclave costeiro superpovoado, à medida que as tropas israelenses se retiram. A primeira fase deixou Israel no controle de bem mais da metade de Gaza, com o Hamas mantendo uma parte do território ao longo da costa.
Israel continuou a realizar ataques aéreos e de artilharia em Gaza, muitas vezes acusando militantes do Hamas de preparar ataques contra suas tropas ou de invadir áreas que controla.
Autoridades de saúde do Hospital Al Shifa, o maior de Gaza, disseram que quatro palestinos foram mortos nesta quinta-feira por bombardeios de tanques israelenses no subúrbio de Zeitoun, no leste da Cidade de Gaza. Uma quinta pessoa foi morta por fogo israelense em Khan Younis, no sul, disseram as autoridades.
O Exército de Israel não forneceu comentários de imediato.
Um dia antes, fogo israelense matou 11 pessoas, incluindo dois meninos e três jornalistas, de acordo com autoridades de saúde. Nesta quinta-feira, palestinos em Gaza realizaram funerais para os três jornalistas, que, segundo ativistas de defesa da imprensa, usavam um drone para filmar tendas erguidas para pessoas desabrigadas.
Sem fornecer provas, militares israelenses disseram que o drone era "afiliado ao Hamas" e "representava uma ameaça à segurança (das tropas)".
Soldados "atingiram com precisão os suspeitos que ativaram o drone", disse o Exército.
Israel matou mais de 480 palestinos desde que o cessar-fogo entrou em vigor, segundo autoridades de saúde, enquanto militantes mataram três soldados israelenses.
Israel lançou sua guerra aérea e terrestre em Gaza após um ataque transfronteiriço liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou 1.200 pessoas, de acordo com registros israelenses. A resposta de Israel matou 71.000 palestinos, segundo as autoridades de saúde.
(Reportagem de Steven Holland, Rami Ayyub, Nidal al-Mughrabi e Pesha Magid)
((Tradução Redação Brasília))
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