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Mortes no Irã não se limitam a manifestantes e atingiram transeuntes, dizem testemunhas

Reuters21 de jan de 2026 às 19:23

Por Parisa Hafezi

- O estudante de artes Arash estava voltando para casa pelas ruas de Teerã quando um tiro de espingarda acabou com sua vida. Ele não havia gritado palavras de ordem, nem se juntado a manifestantes ou levantado o punho.

Um amigo descreveu, por telefone, o momento com a voz embargada.

"Arash caiu instantaneamente, sem vida, na calçada. Ele tinha 22 anos."

O amigo, que pediu anonimato por temer por sua segurança, disse que eles haviam parado na calçada para assistir a um protesto na vizinha Praça Vanak quando forças de segurança em uniformes pretos chegaram e começaram a disparar aleatoriamente contra os manifestantes.

A morte de Arash, em 8 de janeiro, é um exemplo do que, segundo testemunhas, tem sido uma realidade nos últimos protestos contra o governo do país: espectadores não envolvidos nos distúrbios atingidos por tiros ou mortos enquanto tentavam fugir do caos.

A Reuters não conseguiu verificar de forma independente este ou outros relatos semelhantes de testemunhas sobre mortes durante a repressão do Estado aos distúrbios e não conseguiu determinar quantos dos milhares de mortos eram espectadores ou pessoas que estavam apenas próximas aos locais de protestos quando foram baleados.

Mas relatos de famílias e testemunhas sugerem que a força indiscriminada usada para reprimir os distúrbios matou muitos civis que não participavam dos protestos, fazendo com que parentes vasculhassem hospitais, necrotérios e centros de detenção em busca de respostas.

As autoridades do Irã não puderam ser contatadas para comentar as mortes descritas nesta história, já que linhas telefônicas e conexões de internet estão bloqueadas desde 8 de janeiro, quando os protestos se espalharam por todo o país. Desde 13 de janeiro, iranianos podem fazer chamadas telefônicas internacionais, mas telefonemas para dentro do país seguem bloqueados.

Não houve resposta imediata aos pedidos de comentários enviados às missões iranianas da ONU em Genebra e Nova York.

Autoridades atribuíram os distúrbios e as mortes a "terroristas e desordeiros" apoiados por oponentes exilados e adversários estrangeiros, os Estados Unidos e Israel. A TV estatal exibiu imagens de prédios da polícia e do governo queimados, mesquitas e bancos destruídos que, segundo ela, foram atacados por esses "terroristas e desordeiros".

O grupo de direitos humanos HRANA, com sede nos EUA, disse que até o momento verificou 4.519 mortes relacionadas aos distúrbios, incluindo 4.251 manifestantes, 197 membros da equipe de segurança, 35 pessoas com menos de 18 anos e 38 espectadores que, segundo o grupo, não eram manifestantes nem membros da equipe de segurança.

A HRANA ainda analisa outras 9.049 mortes. Uma autoridade iraniana disse à Reuters que o número confirmado de mortos até domingo era de mais de 5.000, incluindo 500 membros das forças de segurança.

Os protestos começaram em 28 de dezembro de forma modesta no Grande Bazar de Teerã por causa das dificuldades econômicas e rapidamente se espalharam por todo o país.

Em poucos dias, multidões em cidades e vilas estavam pedindo o fim do governo clerical, e a TV estatal mostrava imagens de pessoas queimando imagens do líder supremo Ayatollah Ali Khamenei.

A Anistia Internacional disse em um relatório que documentou integrantes das forças de segurança posicionadas nas ruas e nos telhados -- incluindo os de prédios residenciais, mesquitas e delegacias de polícia -- disparando repetidamente rifles e espingardas carregadas com balas de metal, muitas vezes mirando na cabeça e no tronco de indivíduos desarmados.

Segundo o relatório, evidências apontam para uma escalada coordenada em todo o país do uso ilegal de força letal pelas forças de segurança contra manifestantes pacíficos e transeuntes desde a noite de 8 de janeiro.

A agitação representou uma das mais graves ameaças ao establishment clerical do Irã em anos, com o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçando repetidamente intervir caso os manifestantes continuem a ser mortos nas ruas ou se forem executados.

O Judiciário do Irã indicou que a execução das pessoas detidas durante os protestos pode seguir adiante.

((Tradução Redação Brasília))

REUTERS MCM

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