
Por Stefano Rebaudo
LONDRES, 5 Fev (Reuters) - Os bancos centrais das grandes economias estão divergindo, com a Austrália elevando as taxas de juros esta semana (link) pela primeira vez em dois anos, enquanto outros adotam uma abordagem mais cautelosa, mesmo que provavelmente já tenham encerrado o período de flexibilização.
O Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra mantiveram as taxas de juros inalteradas na quinta-feira, embora a decisão do Reino Unido tenha sido vista pelos mercados como mais branda. (link) O Federal Reserve dos EUA permanece no campo da flexibilização monetária.
Eis a situação dos bancos centrais em 10 mercados desenvolvidos:
1/ ESTADOS UNIDOS
O Fed manteve as taxas de juros inalteradas no mês passado e sugeriu que poderia haver uma longa espera antes de quaisquer novos cortes.
Ainda assim, os investidores já estão considerando plenamente um novo corte de 25 pontos-base até julho.
Kevin Warsh, indicado pelo presidente Donald Trump para substituir Jerome Powell na presidência do Fed quando seu mandato terminar em maio, defendeu cortes nas taxas de juros e um balanço patrimonial menor. Essa combinação poderia acentuar a inclinação da curva de juros dos títulos do Treasury norte-americano (link), o que deixa incerta a direção geral das taxas.
2/ Reino Unido
O Banco da Inglaterra manteve as taxas de juros inalteradas na quinta-feira, mas somente após uma votação inesperadamente apertada de 5 a 4 (link), e argumentou que um maior afrouxamento das medidas é uma opção viável, visto que o crescimento salarial está perdendo força.
A inesperada inclinação mais branda da política monetária colocou os rendimentos dos títulos do governo britânico de dois anos GB2YT=RR, sensíveis à política monetária, a caminho de sua maior queda diária desde abril de 2024.
Os investidores agora preveem cortes de juros de quase 50 pontos-base até o final do ano, um aumento em relação aos 35 pontos-base previstos antes da decisão sobre as taxas.
3/ NORUEGA
O Norges Bank manteve sua taxa básica de juros em 4% no mês passado e reiterou que cortes são prováveis ainda este ano, embora não sejam iminentes, com os investidores aguardando novas previsões econômicas em março.
No entanto, um maior afrouxamento monetário não se coaduna com os dados mais recentes. A taxa de inflação subjacente da Noruega subiu inesperadamente para 3,1% (link) em comparação com o ano anterior em dezembro, o que demonstra a resiliência da demanda interna.
4/ SUÍÇA
Com uma taxa de 0%, o Banco Nacional Suíço possui a taxa mais baixa entre os principais bancos centrais do mundo, e é provável que permaneça assim por enquanto.
As projeções de inflação de longo prazo do SNB permanecem dentro da meta de 0 a 2%, mas o banco enfrenta um cenário preocupante (link): As pressões sobre os preços ainda estão moderadas, enquanto o franco suíço, considerado um porto seguro, está próximo de suas máximas em vários anos em relação ao euro e ao dólar.
A próxima reunião será no dia 19 de março.
5/ CANADÁ
Em janeiro, o Banco do Canadá manteve as taxas de juros em 2,25%, com os formuladores de políticas alertando que os elevados riscos geopolíticos e a incerteza em torno da política comercial dos EUA poderiam gerar novos choques na economia, justificando um maior afrouxamento monetário.
O crescimento econômico desacelerou (link) em novembro, após quase um ano de incertezas tarifárias e comerciais, que afetaram o sentimento empresarial, restringiram o investimento e deixaram muitas empresas prevendo demissões.
6/ ZONA DO EURO
O BCE manteve sua taxa básica de juros (link) em 2% na quinta-feira, como esperado, e os investidores não preveem nenhuma mudança neste ano.
Ainda assim, uma recente queda do dólar, a volatilidade nos mercados de commodities, a troca de farpas entre o governo Trump e a Groenlândia e a pressão exercida sobre o Fed para reduzir as taxas de juros sugerem que a situação pode mudar rapidamente.
7/ SUÉCIA
O banco central da Suécia manteve as taxas de juros em 1,75% em 29 de janeiro e sinalizou que a política monetária provavelmente permanecerá inalterada "por algum tempo ainda" (link).
A expectativa é de que a economia da Suécia se recupere este ano e que a inflação diminua, mas os riscos geopolíticos permanecem.
8/ NOVA ZELÂNDIA
A Nova Zelândia está se posicionando no campo das políticas mais restritivas.
Com a inflação anual acelerando para 3,1% (link) no quarto trimestre, o banco central da Nova Zelândia provavelmente encerrou seu ciclo de afrouxamento monetário. Os mercados estão precificando quase dois aumentos de 25 pontos-base na taxa de juros até o final do ano.
A próxima reunião será no dia 18 de fevereiro.
9/ AUSTRÁLIA
O banco central da Austrália aumentou as taxas de juros na terça-feira (link) apenas seis meses após seu último corte em agosto.
Dados recentes que apontam para um forte consumo, preços recordes de imóveis e crédito abundante para famílias e empresas reforçaram as preocupações de que as condições financeiras estavam longe de ser restritivas.
Os investidores já precificam outro aumento de juros até meados do ano.
10/ JAPÃO
O Banco do Japão foi o único grande banco central a manter o aperto monetário enquanto seus pares afrouxavam. Ele não é mais uma exceção.
Autoridades do Banco do Japão alertam que um iene fraco está alimentando pressões inflacionárias mais fortes do que o esperado, e algumas delas advertem que correm o risco de ficar "para trás da curva". (link)
O Banco do Japão elevou as taxas de juros em dezembro para o nível mais alto em 30 anos e, em seguida, as manteve estáveis em janeiro.
A orientação monetária e fiscal mais branda da primeira-ministra Sanae Takaichi pode complicar o caminho do Banco do Japão (link), especialmente se ela conquistar um forte mandato na eleição antecipada de domingo.