
Por Howard Schneider
WASHINGTON, 24 Fev (Reuters) - Os Estados Unidos podem estar entrando em um período de desemprego estruturalmente mais alto, à medida que as empresas implementam ferramentas de inteligência artificial para economizar mão de obra, um momento potencialmente desafiador que o Federal Reserve não seria necessariamente capaz de compensar com taxas de juros mais baixas, disse o presidente do Fed de Atlanta, Raphael Bostic, em entrevista à Reuters.
"Podemos estar em um período de transformação, no qual os empregadores não precisam de tantos trabalhadores quanto antes", disse Bostic, que deixará o cargo no banco regional do Fed ao final de seu mandato atual, em 28 de fevereiro.
Em vez de tentar reduzir artificialmente o desemprego com cortes nos juros, "se estivermos passando por uma mudança estrutural, precisamos realmente reconhecer essa realidade" e ajustar as taxas de acordo, disse Bostic.
"Este é um momento muito difícil para ser banqueiro central e formulador de políticas... Devido à mudança estrutural, o mesmo número está, na verdade, enviando uma mensagem diferente sobre a situação da economia."
Os comentários -- que servem de base para seu argumento de que os juros não precisam cair muito mais, se é que precisam cair -- representam o outro lado da moeda do argumento apresentado por Kevin Warsh, indicado para a presidência do Fed.
Para Warsh, as taxas podem cair agora porque um boom de produtividade impulsionado pela IA permitirá que a economia produza mais com menos, uma situação que deveria implicar em menor pressão inflacionária.
Bostic e outros membros do Fed estão levantando dúvidas sobre como exatamente a mudança na produtividade, caso se mantenha, se desenvolverá e por quanto tempo. O presidente do Fed de Atlanta observa que empresas mais produtivas podem funcionar com menos trabalhadores -- uma tendência que poderia alterar a chamada taxa natural de desemprego, que o banco central americano considera consistente com sua meta de inflação de 2%.
Os membros do Fed consideram atualmente, em média, que a taxa de desemprego subjacente a longo prazo seja de 4,2%. Em janeiro, a taxa de desemprego era de 4,3%.
Embora o Fed possa reagir às mudanças no desemprego decorrentes do fluxo e refluxo do ciclo econômico, a resposta a uma mudança estrutural na demanda por mão de obra seria mais tradicionalmente da alçada da política fiscal, definida por autoridades eleitas e abrangendo itens como seguro-desemprego e programas de requalificação profissional.
"Lidar com problemas de curto prazo que são de natureza estrutural pode nos colocar em risco de uma situação muito mais difícil, onde ambas as nossas medidas de política monetária parecem estar caminhando na direção errada", disse Bostic.
Para ele, o Fed precisa continuar pressionando a inflação, que permanece cerca de um ponto percentual acima da meta.
GANHOS ECONÔMICOS COMPARTILHADOS
A mudança pode já estar em curso, com os recém-formados, por exemplo, enfrentando uma transição mais difícil para o mercado de trabalho após décadas em que os portadores de diploma universitário tinham uma vantagem inerente na contratação.
Em um momento em que o discurso político nacional se afastou das discussões sobre desigualdade, com o governo Trump desencorajando explicitamente iniciativas em torno de "diversidade, equidade e inclusão", Bostic afirmou que acredita que o foco contínuo do Fed nos "nichos" da economia foi o que levou os formuladores de políticas a cortar as taxas de juros três vezes no ano passado -- algo que o presidente Donald Trump exigiu que o banco central continuasse de forma mais agressiva.
Os cortes nas taxas de juros "foram explicitamente motivados pela potencial fragilidade do mercado de trabalho, e a evidência disso estava em nichos específicos", disse Bostic. "Era o número de pessoas sem formação superior. Era a taxa de desemprego entre afro-americanos... Exatamente nesses pontos que estamos levando em consideração e considerando as preocupações e opiniões de segmentos da população."
Bostic, de 59 anos, possui doutorado em economia e é o primeiro presidente negro e assumidamente gay de um banco regional do Fed. Ele tem sido um dos mais francos nos círculos de formulação de políticas do banco central sobre a necessidade de garantir que os ganhos econômicos sejam amplamente compartilhados.
Apesar da reação negativa que se desenvolveu antes da eleição de Trump para um segundo mandato na Casa Branca, em 2024, Bostic afirmou que o Fed não deixou de pesquisar ou discutir o desempenho da economia em diferentes áreas geográficas ou grupos étnicos. Essas questões são consideradas essenciais para a compreensão da economia, mesmo que as autoridades reconheçam que a política monetária não pode visar resultados específicos.
"O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), responsável pela definição de políticas, e o sistema do Fed como um todo têm se mostrado bastante comprometidos em pensar de forma mais ampla e diferente sobre o funcionamento dos mercados de trabalho", disse Bostic, sobre uma questão que agora está ligada ao debate emergente sobre IA e produtividade.
TRANSIÇÃO NO FED
Juntamente com o Conselho do Fed, sediado em Washington, o sistema do banco central norte-americano inclui 12 presidentes de bancos regionais que compartilham as responsabilidades de voto sobre a política monetária e participam dos debates nas reuniões regulares de definição de políticas, normalmente realizadas a cada seis semanas.
A instituição como um todo tem sofrido pressão do governo Trump para implementar cortes profundos nas taxas de juros, um esforço evidenciado pela tentativa do presidente de demitir a diretora Lisa Cook e pela investigação do Departamento de Justiça sobre o chair do Fed, Jerome Powell.
Há ainda uma longa lista de críticas de Warsh ao Fed e sua equipe, além de um apelo recente do principal assessor econômico da Casa Branca, Kevin Hassett, para que uma equipe de economistas do Fed de Nova York seja "disciplinada" por uma pesquisa recente sobre tarifas.
Bostic disse ter esperança de que as salvaguardas que mantêm o Fed como uma instituição independente, pelo menos na definição da política monetária, se mantenham. Não há, por exemplo, qualquer indício de que a equipe do Fed esteja evitando diferentes questões por causa das possíveis repercussões políticas, disse Bostic, embora tenha observado que há uma atenção redobrada para garantir que as conclusões das pesquisas sejam "descritivas" e não "normativas".
Ele também disse que Warsh, como qualquer novo chair do Fed, precisaria construir confiança entre a equipe, os outros diretores de bancos centrais e os presidentes regionais.
"Ele precisa ter um relacionamento com sua equipe. Acho que ele precisa ter um relacionamento com os outros diretores e relacionamentos com os presidentes e demais interessados", disse Bostic. "Será sua responsabilidade construir esses relacionamentos de forma que a instituição continue funcionando... Essa é a tarefa de qualquer novo presidente do Conselho."
"Uma coisa que vamos observar é como ele reage à pressão. Só saberemos quando tivermos informações concretas", disse Bostic. "Você acha que sabe qual é o trabalho, aí senta na cadeira e descobre qual é a realidade. Muitas vezes, não é a mesma coisa."
(Reportagem de Howard Schneider)
((Tradução Redação São Paulo))
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