
Por Mark John e Samia Nakhoul
DAVOS, Suíça, 23 Jan (Reuters) - Embora a Europa tenha se unido para repelir o presidente Donald Trump sobre a Groenlândia, seus líderes reconhecem que esse confronto provavelmente não será o último em suas relações com a versão cada vez mais estridente dos Estados Unidos defendida por ele.
A situação não poderia ser mais grave, considerando a relação comercial de 2 trilhões de dólares entre a União Europeia e os EUA e o papel dominante que Washington continua a desempenhar na aliança da Otan e no apoio à Ucrânia contra a Rússia.
Esta semana, em questão de poucas horas durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, Trump primeiro descartou a anexação da Groenlândia pela força e depois removeu a ameaça de novas tarifas sobre oito países europeus que representavam um obstáculo para seus planos, anunciando, em vez disso, um acordo vago. (link) para a ilha ártica com o chefe da Otan, Mark Rutte.
Os líderes europeus acreditam que Trump recuou em parte porque – ao contrário da sua postura mais conciliadora nas negociações tarifárias do ano passado – desta vez deixaram claro que ele estava a ultrapassar uma linha vermelha ao afirmar que o status da Groenlândia como território autônomo da Dinamarca era inegociável.
"Tudo isso demonstra que não se pode deixar os norte-americanos pisotearem os europeus", disse um funcionário da União Europeia, que pediu anonimato para falar abertamente sobre as relações com os EUA.
"Fizemos o certo ao reagir, ao sermos firmes no que dissemos, mas não acabou. A minha impressão é que seremos constantemente testados em questões como esta", disse o funcionário à Reuters.
Embora a Europa possa ter aprendido o valor de se opor a Trump, o desafio é garantir que esteja menos vulnerável na próxima vez.
"É um caminho difícil e vai levar tempo", disse Rosa Balfour, diretora da Carnegie Europe, acrescentando que a Europa tem "muito mais influência do que ousou usar".
EUROPA NÃO BUSCA UMA DIVISÃO
Uma cúpula de emergência dos líderes europeus, na quinta-feira, pediu (link) que o acordo comercial UE-EUA do ano passado fosse retomado depois que os parlamentares suspenderam sua ratificação em protesto contra a Groenlândia.
"Apesar de toda a frustração e raiva dos últimos meses, não devemos descartar a parceria transatlântica tão rapidamente", disse o chanceler alemão Friedrich Merz em Davos, antes do evento.
Ao mesmo tempo que procura estabilizar a parceria, a Europa também está a tomar medidas destinadas a "reduzir os riscos", dada a antipatia declarada de Trump, cuja nova estratégia de segurança nacional acusa o continente de se aproveitar dos custos da defesa e exige que abra os seus mercados às empresas norte-americanas.
A Europa está bem ciente de quanto tempo pode levar para se chegar a um acordo entre 27 nações com histórias, políticas e economias diferentes, o que foi evidenciado em provocações (link) esta semana do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent.
Dois funcionários da UE disseram que a disputa sobre a Groenlândia acelerou as discussões sobre como a abordagem adotada em relação à Ucrânia - na qual os países oferecem garantias de segurança de forma voluntária e ninguém tem direito de veto - pode ser ampliada.
"Deveríamos fazer mais com coalizões dos dispostos e deixar em aberto para que outros sigam o exemplo, se assim o desejarem", disse um deles, acrescentando que os esforços conjuntos para impulsionar o desenvolvimento da tecnologia de inteligência artificial na Europa poderiam ser um exemplo.
Coalizões como o grupo "E3", composto por França, Alemanha e Reino Unido e focado em questões de segurança, também permitem a participação de países não pertencentes à UE, o que é relevante para outros que foram duramente atingidos pelas políticas de Trump.
"As potências médias devem agir em conjunto, porque se não estivermos à mesa de negociações, estaremos no cardápio", disse o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em um discurso em Davos, sob calorosos aplausos.
Outra alternativa é aproveitar a margem de manobra permitida pela legislação da UE.
Em dezembro, os Estados-membros da UE utilizaram uma medida de emergência para imobilizar indefinidamente centenas de bilhões de dólares em ativos russos. Isso eliminou o risco de um país pró-Moscou, como a Hungria, bloquear a prorrogação da medida em algum momento e obrigar a UE a devolver o dinheiro.
NOVA DOUTRINA EUROPEIA
A Europa também planeja endurecer a política econômica.
No próximo mês, será impulsionada uma legislação que incluirá requisitos "Made in Europe" para setores estratégicos e o reforço das cláusulas de condicionalidade para qualquer investimento estrangeiro direto na UE.
"Algumas medidas foram originalmente concebidas para reduzir a dependência da China, mas, na realidade, elas nos ajudarão a diminuir os riscos em outros mercados", disse à Reuters o Comissário Europeu para a Prosperidade e a Estratégia Industrial, Stéphane Séjourne.
"Isto mudará completamente a doutrina europeia nesses setores", acrescentou Séjourne.
Ao contrário do Canadá (link), não existe na Europa nenhum plano para se aproximar mais da China a fim de compensar as tensões transatlânticas. Mas o bloco está ativamente buscando outras fontes de diversificação.
Embora o impacto do aumento das tarifas norte-americanas sobre os produtos europeus não seja claro — na verdade, o superávit comercial da Europa com os EUA inicialmente aumentou ao longo de 2025, à medida que as empresas anteciparam as exportações antes da entrada em vigor das novas taxas —, dados recentes (link) mostram que as empresas alemãs reduziram quase pela metade os investimentos lá no ano passado.
Após a assinatura do pacto UE-Mercosul este mês – o maior da história da UE – a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que agora está "na iminência" de um acordo com a Índia (link).
No entanto, ninguém está dizendo que a Europa possa corrigir o desequilíbrio com os EUA da noite para o dia, especialmente em matéria de segurança.
Apesar dos compromissos europeus com um aumento significativo nos gastos com defesa e até mesmo apelos por um exército da UE (link), analistas afirmam que levará anos até que seu poderio militar esteja à altura das tarefas, que agora incluem o reforço da segurança no Ártico.
A questão é se as últimas semanas servirão de catalisador para que a Europa comece a reduzir sua dependência dos EUA.
"Nada disso é surpreendente", disse a vice-primeira-ministra sueca, Ebba Busch, sobre a atuação de Trump em Davos.
"A UE precisa endurecer as suas posições", disse ela à Reuters.