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EUA intensificam exportação de combustível para setor privado de Cuba

Reuters25 de mar de 2026 às 13:54

Por Dave Sherwood e Marianna Parraga

- Fornecedores dos Estados Unidos enviaram aproximadamente 30.000 barris de combustível para o setor privado de Cuba este ano até o momento, segundo documentos e dados de remessas consultados pela Reuters.

Os envios sugerem que está em pleno andamento um plano do governo Trump para dar vantagem às empresas privadas em relação às estatais no país.

Desde janeiro, os Estados Unidos vêm impondo um bloqueio de petróleo de fato contra seu antigo inimigo, numa tentativa de privar Cuba de combustível e pressionar seu governo.

Mas abriu-se uma exceção para o pequeno, porém vital, setor privado do país comunista.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a autorização dessas exportações de combustível se encaixa em uma política mais ampla do governo Trump, "inteiramente concebida para colocar o setor privado e os cidadãos cubanos individuais -- não afiliados ao governo, não afiliados aos militares -- em uma posição privilegiada".

O volume de combustível importado desde o início de fevereiro pelo setor privado -- cerca de 30.000 barris, ou aproximadamente 4,8 milhões de litros – equivale a pouco mais de um décimo da capacidade de um típico navio-tanque de combustível de médio porte, uma fração das necessidades do país.

Até recentemente, Cuba necessitava de cerca de 100 mil barris por dia de combustível importado para abastecer suas usinas de energia e atender à demanda regular de veículos e aviões.

Mas os números, até então não divulgados, sugerem que o plano de Rubio está avançando, com os volumes importados crescendo semana após semana, de acordo com os documentos de embarque vistos pela Reuters.

VARIEDADE DE PRODUTOS

Desde que Washington capturou o líder venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, os EUA bloquearam o fornecimento de petróleo venezuelano ao governo cubano e ameaçaram impor tarifas a qualquer outro país que exporte combustível para a ilha.

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou na semana passada que a ilha não recebe combustível há três meses. Ele não fez menção ao fornecimento do setor privado.

Até o momento, em 2026, 61 navios porta-contêineres transportando uma variedade de produtos importados por empresas privadas -- incluindo combustível -- descarregaram em Cuba, frequentemente fazendo o transporte de ida e volta entre portos cubanos e portos dos EUA, da Europa e de outros países do Caribe.

A maioria dos navios descarregou no porto de Mariel, a oeste de Havana, e outros dois estão a caminho da Espanha e da Jamaica para descarregar até o final do mês. As chegadas estão ligeiramente abaixo dos 75 navios porta-contêineres no mesmo período do ano passado, de acordo com dados de rastreamento de embarcações da LSEG analisados ​​pela Reuters.

Segundo os números, alguns dos navios porta-contêineres com destino a Cuba partiram este ano de importantes centros energéticos onde são carregados produtos como carvão, petróleo bruto e refinados, embora a grande maioria dos navios que chegaram a Cuba sejam classificados na origem como multipropósito, o que significa que transportam uma variedade de itens.

Os dados também revelaram um aumento nos embarques originários da Costa do Golfo dos EUA, particularmente em Southwest Pass, na Louisiana -- um importante corredor energético --, embora a maioria dos navios porta-contêineres com origem nos EUA e destino a Cuba neste ano tenha partido da Flórida.

O novo fluxo de combustível permitiu que algumas empresas mantivessem suas operações intactas, apesar do severo bloqueio que afetou o já debilitado transporte público, a geração de energia elétrica e o turismo.

Desde o início de fevereiro, quando as exportações começaram, o combustível começou a chegar aos poucos às empresas do setor privado, inicialmente paralisadas pelo bloqueio, disseram à Reuters três empresários em Cuba.

A lista de empresas importadoras de combustível inclui fabricantes de pão privados, atacadistas que distribuem mercadorias para pequenos mercados privados em áreas urbanas e lojas online maiores, como o supermercado Supermarket23, de acordo com fontes e documentos consultados pela Reuters.

Em fevereiro, o Supermarket23 notificou seus clientes de que não estava mais aceitando pedidos devido à crise de combustível. Mas, desde então, importou combustível, o que permitiu a retomada dos serviços de entrega, segundo uma fonte com conhecimento direto de sua operação.

A empresa não respondeu ao pedido de comentário da Reuters.

SEM BRINCADEIRAS

Em fevereiro, o Escritório de Indústria e Segurança dos EUA divulgou orientações autorizando a exportação e reexportação de gás e produtos petrolíferos dos EUA para entidades do setor privado cubano que atendam aos requisitos.

O governo cubano, por sua vez, afirmou que permitiria que micro, pequenas e médias empresas privadas importassem o combustível para aliviar a crise energética.

As três fontes empresariais afirmaram que empresas privadas estão implementando controles rigorosos para garantir que a intenção do programa norte-americano não seja violada.

A revenda comercial não é permitida -- o combustível deve ser usado apenas pelas partes importadoras, acrescentou outra fonte.

As autoridades cubanas também desenvolveram normas de segurança para regulamentar o armazenamento e a distribuição do combustível recém-chegado pelo setor privado, disse uma fonte do governo cubano à Reuters.

De acordo com documentos consultados pela Reuters, o combustível importado chega principalmente em tanques ISO projetados para armazenar e transportar com segurança aproximadamente 21.600 litros de combustível em navios porta-contêineres.

Os documentos mostram que cerca de 200 desses contêineres ISO foram descarregados em Cuba. A grande maioria das importações é de diesel. Apenas 1% dos contêineres continha gasolina. A maioria era proveniente dos Estados Unidos, conforme indicam os dados de embarque.

A gasolina é mais inflamável que o diesel e requer mais cuidado durante o armazenamento e o transporte, o que limita sua utilidade em uma ilha com pouca infraestrutura moderna.

Algumas empresas instalaram grandes tanques ISO brancos de diesel em suas dependências, ao lado de instalações já existentes, enquanto outras firmaram contratos para alugar infraestrutura ociosa na ilha para armazenar maiores quantidades de combustível, limitando estritamente sua distribuição apenas a empresas do setor privado, disseram as fontes.

As exportações de combustível dos EUA para empresas privadas em Cuba vêm com uma ressalva clara.

"Se flagrarmos o setor privado agindo de forma ilícita e desviando recursos para o regime ou para empresas militares, se descobrirmos que estão movimentando esses materiais de maneiras que violam o espírito e o escopo dessas permissões, essas licenças serão canceladas", disse Rubio em fevereiro.

(Reportagem de Dave Sherwood em Havana e Marianna Parraga em Houston)

((Tradução Redação São Paulo))

REUTERS FDC

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