
Por Timour Azhari e Marwa Rashad
7 Mar (Reuters) - A guerra com o Irã pode fazer com que consumidores e empresas de todo o mundo enfrentem semanas ou meses de preços mais altos de combustíveis mesmo que o conflito de uma semana termine rapidamente, já que os fornecedores mundiais lutam para lidar com instalações danificadas, logística interrompida e riscos elevados de transporte.
Esse cenário representa uma ameaça econômica global mais ampla, bem como uma vulnerabilidade política para o presidente dos EUA, Donald Trump, que se aproxima das eleições de meio de mandato, com eleitores sensíveis às contas de energia e desfavoráveis a envolvimentos com o exterior.
"O mercado está deixando de precificar o risco geopolítico puro e passando a lidar com interrupções operacionais tangíveis, à medida que as paralisações de refinarias e as restrições de exportação começam a prejudicar o processamento de petróleo e os fluxos de fornecimento regional", disseram analistas do JP Morgan em uma nota na sexta-feira.
O conflito já levou à suspensão de cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo e gás natural, já que Teerã tem como alvo navios no vital Estreito de Ormuz, entre seu litoral e Omã, e ataca a infraestrutura de energia em toda a região.
Os preços globais do petróleo subiram 24% esta semana, para mais de US$90 por barril, e estão a caminho de seus maiores ganhos semanais desde a pandemia, elevando os preços dos combustíveis para consumidores em todo o mundo.
A paralisação quase total do Estreito significa que os gigantes produtores de petróleo da região -- Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuweit -- tiveram que suspender as remessas de até 140 milhões de barris de petróleo, o equivalente a cerca de 1,4 dia da demanda global, para as refinarias globais.
Como resultado, o armazenamento de petróleo e gás em instalações no Golfo do Oriente Médio está se enchendo rapidamente, forçando os campos de petróleo no Iraque a cortar a produção de petróleo. O Kuweit e os Emirados Árabes Unidos provavelmente serão os próximos a promover cortes, disseram analistas, operadores e fontes.
"Em breve, todos também fecharão as portas se os navios não chegarem", disse uma fonte de uma estatal de petróleo da região, que pediu para não ser identificada.
Os campos de petróleo forçados a fechar em todo o Oriente Médio em decorrência das interrupções no transporte marítimo podem levar algum tempo para voltar ao normal, disse Amir Zaman, chefe da equipe comercial das Américas na Rystad Energy.
"O conflito pode ser encerrado, mas pode levar dias, semanas ou meses, dependendo dos tipos de campos, da idade do campo, do tipo de fechamento que eles tiveram que fazer antes que a produção volte a ser o que era antes", disse ele.
Enquanto isso, as forças iranianas estão atacando a infraestrutura regional de energia -- incluindo refinarias e terminais -- forçando-as a fechar também, sendo que algumas dessas operações foram muito danificadas pelos ataques e precisam de reparos.
O Catar declarou força maior em seus enormes volumes de exportação de gás na quarta-feira após os ataques de drones iranianos e pode levar pelo menos um mês para retornar aos níveis normais de produção, disseram fontes à Reuters. O Catar fornece 20% do GNL global.
Enquanto isso, a gigantesca refinaria Ras Tanura e o terminal de exportação de petróleo bruto da Saudi Aramco também foram fechados devido aos ataques, sem detalhes sobre os danos.
A Casa Branca justificou o ataque ao Irã dizendo que o país representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos, embora não tenha fornecido detalhes. Trump também disse que estava preocupado com os esforços do Irã para obter uma arma nuclear.
PERIGO NO ESTREITO
Um fim rápido da guerra acalmaria os mercados. Mas o retorno do fornecimento e dos patamares anteriores de preços à guerra poderia levar semanas ou meses, dependendo da extensão dos danos à infraestrutura e à navegação.
"Considerando os danos físicos causados pelos ataques iranianos, até agora não vimos nada que pudesse ser considerado estrutural, embora o risco permaneça enquanto a guerra continuar", disse Joel Hancock, analista de energia do Natixis CIB.
A maior questão para o fornecimento de energia é como e quando o Estreito de Ormuz voltará a ser seguro para a navegação. Trump ofereceu escoltas navais aos navios petroleiros e prometeu apoio de seguro dos EUA às embarcações na região.
Mas a segurança no local pode continuar difícil de alcançar, já que o Irã tem a capacidade de manter ataques com drones contra navios por meses, segundo fontes militares e de inteligência.
O conflito também pode incentivar os países a aumentarem suas reservas estratégicas de petróleo nas semanas e meses após o término do conflito, expondo os perigos de estoques reduzidos. Isso aumentaria a demanda por petróleo e sustentaria os preços.
RISCO POLÍTICO E ECONÔMICO GLOBAL
Enquanto isso, a interrupção das remessas está repercutindo nas cadeias de suprimentos e nas economias da Ásia, que depende de importações e obtém 60% de seu petróleo bruto do Oriente Médio.
Na Índia, a Mangalore Refinery and Petrochemicals MRPL.NS, administrada pelo Estado, declarou força maior nas cargas de exportação de gasolina, disseram fontes nesta semana, juntando-se a um número crescente de refinarias na região incapazes de cumprir contratos de vendas devido à falta de fornecimento.
Pelo menos duas refinarias na China interromperam suas atividades. A China, um grande fornecedor da região, pediu às refinarias que suspendessem as exportações de combustível. A Tailândia também suspendeu as exportações de combustível, enquanto o Vietnã suspendeu os embarques de petróleo bruto.
A interrupção deu um impulso à Rússia. Os preços das cargas de petróleo bruto russo subiram, pois os EUA concederam às refinarias indianas uma isenção de 30 dias para comprar petróleo bruto russo para substituir o suprimento perdido do Oriente Médio. Washington havia pressionado a Índia a cortar as importações de petróleo russo sob a ameaça de tarifas.
No Japão, o segundo maior importador global de GNL, os futuros de energia de carga básica para Tóquio para o ano fiscal que começa em abril subiram mais de um terço esta semana na EEX, em antecipação aos preços mais altos do combustível. E em Seul, motoristas fizeram fila nos postos de gasolina, antecipando o aumento dos preços na bomba.
Para os consumidores europeus, a crise no fornecimento de gás e os preços mais altos são um golpe duplo. A região foi a mais afetada pela interrupção do fornecimento de gás devido às sanções impostas às importações de energia russas depois que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022.
A Europa recorreu às importações de GNL para substituir o gás de gasoduto russo. E a Europa agora precisa comprar 180 cargas de GNL a mais do que no ano passado para encher seus armazenamentos de gás até os níveis necessários antes do próximo inverno.
Os riscos de fornecimento para os Estados Unidos são menores, pois o país cresceu nos últimos anos e se tornou o maior produtor de petróleo e gás do mundo. No entanto, os preços do petróleo e do combustível nos EUA sobem junto com os mercados internacionais de petróleo, de modo que os preços da gasolina e do diesel nas bombas são afetados, mesmo que a oferta doméstica seja abundante.
A gasolina média de varejo dos EUA, por exemplo, atingiu US$3,32 por galão na sexta-feira, um aumento de 34 centavos em relação à semana passada, de acordo com a AAA. Os preços do diesel, por sua vez, atingiram US$4,33 o galão, ante US$3,76 o galão há uma semana.
Os preços mais altos na bomba representam um grande risco para Trump e seus pares republicanos no momento em que se aproximam das eleições de meio de mandato em novembro.
"Os preços da gasolina são psicologicamente poderosos", disse Mark Malek, diretor de investimentos da Siebert Financial. "Eles são o número da inflação que os consumidores veem todos os dias."
(Reportagem de Valerie Volcovici, Timothy Gardner, Stephanie Kelly, Nina Chestney, Nora Buli, Susanna Twidale, Helen Clark, Nidhi Verma, Timour Azhari, Yousef Saba, Maha El Dahan, Marwa Rashad, AhmadGhaddar, Shariq Khan, Daewoung Kim, Yunji Ha, Heejung Jung)
((Tradução Redação São Paulo))
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