
Por Clyde Russell
LAUNCESTON, Austrália, 5 Mar (Reuters) - A explosão nos preços do combustível de aviação na Ásia é um indicador precoce de que o impacto econômico da guerra no Oriente Médio está prestes a se tornar realidade para os consumidores de energia.
Os preços do querosene de aviação em Cingapura, o principal centro comercial da Ásia, dispararam 72% na quarta-feira, atingindo um recorde de US$ 225,44 por barril, devido a preocupações com o fornecimento futuro, em função da interrupção de cerca de 20 milhões de barris por dia (bpd) de remessas de petróleo bruto e produtos refinados através do Estreito de Ormuz.
O preço à vista do querosene de aviação JET-SIN subiu 140% desde o fechamento a US$ 93,45 o barril em 27 de fevereiro, um dia antes de os Estados Unidos (EUA) e Israel lançarem uma campanha de bombardeio aéreo contra o Irã.
Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, está fazendo alguns esforços tardios (link) para garantir que os petroleiros consigam transitar pela estreita hidrovia que transporta cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo, o mercado ainda está longe de estar convencido.
O querosene de aviação é a parte do barril de petróleo bruto mais exposta a interrupções no fornecimento, pois tende a ter os níveis de estoque mais baixos, visto que precisa ser armazenado em tanques especializados.
O aumento vertiginoso do preço à vista significa que a margem de lucro para produzir um barril de querosene de aviação a partir do petróleo bruto de Dubai saltou para mais de US$ 100 por barril, um nível que sugere que os participantes do mercado esperam uma grave escassez nas próximas semanas.
O aumento exorbitante dos preços do combustível de aviação provavelmente foi exagerado, atingindo níveis muito acima do que seria justificado mesmo no pior cenário possível, que seria o fechamento efetivo e prolongado do Estreito de Ormuz.
Mas vale a pena notar que há sinais crescentes de dificuldades nas refinarias asiáticas, com relatos de algumas plantas reduzindo as taxas de operação para preservar os estoques de petróleo bruto, enquanto outras antecipam a manutenção.
A refinaria e petroquímica de Mangalore, na Índia MRPL.NS, suspendeu (link) as exportações de combustível, disseram na quarta-feira duas fontes familiarizadas com o assunto.
A refinaria estatal, que opera uma planta com capacidade de 300.000 barris por dia no estado de Karnataka, no sul do país, exporta cerca de 40% de sua produção de combustíveis refinados.
É provável que outras refinarias sigam o exemplo da MRPL, especialmente as da Índia, que obtêm a maior parte do seu petróleo bruto do Oriente Médio e terão dificuldades para encontrar fornecedores alternativos em curto prazo.
A China instou as empresas a suspenderem a assinatura de novos contratos para exportar (link) combustível refinado e a tentar cancelar remessas já comprometidas, disseram na quinta-feira diversas fontes da indústria e do comércio com conhecimento do assunto.
Caso confirmado, isso restringiria drasticamente os mercados regionais de produtos, visto que a China é um dos poucos países com capacidade de refino ociosa e um grande estoque de petróleo bruto.
ESCASSEZ MÉDIA DE PETRÓLEO BRUTO
Vale ressaltar também que grande parte do petróleo que não passa pelo Estreito de Ormuz é petróleo bruto de acidez média, um tipo valorizado por seu maior rendimento de destilados médios, como querosene de aviação e diesel.
Mesmo que as refinarias consigam obter petróleo bruto alternativo de produtores na África e na América do Sul, esses tipos de petróleo tendem a ser mais leves e, portanto, produzem mais destilados leves, como gasolina e nafta.
Isso sugere que, mesmo quando as refinarias conseguem manter as taxas de processamento, podem ser forçadas a produzir mais destilados leves do que o necessário e não o suficiente de destilados médios.
A margem de lucro para a produção de um barril de gasóleo, o componente básico para o combustível de aviação e o diesel, em Cingapura GO10SGCKMc1 subiu 30,4% na quarta-feira para fechar em US$ 47,69.
O preço mais que dobrou desde 27 de fevereiro, quando fechou a US$ 21,90 o barril, e agora está em níveis vistos pela última vez após a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022.
Não demorará muito para que essas margens elevadas cheguem aos preços de varejo dos combustíveis em países asiáticos com preços de mercado para produtos como gasolina e diesel.
Um aumento acentuado nos preços dos combustíveis provocará um pico de inflação, prejudicará o consumo, interromperá alguns investimentos de capital e levará os bancos centrais a considerar o aumento das taxas de juros.
O problema mais amplo é que, mesmo que haja uma resolução para o conflito com o Irã nas próximas semanas, resultando na livre circulação de embarcações pelo Estreito de Ormuz, os danos causados pela atual interrupção já estão consolidados na cadeia de suprimentos.
Gostando desta coluna? Confira o Reuters Open Interest (ROI) (link), sua nova fonte essencial de comentários financeiros globais. A ROI oferece análises instigantes e baseadas em dados sobre tudo, desde taxas de swap até soja. Os mercados estão se movendo mais rápido do que nunca. A ROI pode te ajudar a acompanhar. Siga a ROI no LinkedIn (link) e X (link).
As opiniões expressas aqui são do autor, colunista da Reuters.