
Por Richard Cowan
WASHINGTON, 18 Fev (Reuters) - Um grupo de parlamentares progressistas abandonará o discurso do presidente norte-americano, Donald Trump, sobre o Estado da União na terça-feira para participar de uma manifestação ao ar livre em protesto contra suas políticas, marcando um raro boicote coordenado à medida que as tensões partidárias em torno do discurso anual se intensificam.
Cerca de uma dúzia de democratas no Senado e na Câmara dos Deputados anunciaram sua participação em um evento chamado “Estado da União do Povo” no National Mall, perto do Capitólio, para destacar sua oposição às políticas do governo republicano, disseram os organizadores nesta quarta-feira.
Entre os parlamentares que devem comparecer ao comício às 20h30 (horário local) — pouco antes do discurso de Trump às 21h — estão os senadores Jeff Merkley, do Oregon, Chris Murphy, de Connecticut, e Chris Van Hollen, de Maryland, juntamente com os deputados Becca Balint, de Vermont, Greg Casar, do Texas, e Pramila Jayapal, do Estado de Washington.
Não houve resposta imediata da Casa Branca a um pedido de comentário.
DIFERENÇAS PARTIDÁRIAS SE APROFUNDAM
O boicote ressalta como o retorno de Trump ao cenário nacional aprofundou as fissuras partidárias, transformando um ritual outrora solene em um campo de batalha sobre a direção da democracia dos EUA. Ao se reunirem do lado de fora do Capitólio, onde Trump falará ao Congresso, os parlamentares dizem que pretendem enquadrar o momento como um desafio público à agenda de Trump.
“Donald Trump ridicularizou o discurso do Estado da União – pegando um momento que deveria unir o país e transformando-o em um comício de campanha para espalhar ódio e divisão”, disse Murphy em um comunicado.
Eleitores que foram afetados pelas políticas de Trump também falarão no comício, de acordo com um comunicado da MeidasTouch, que se autodenomina uma rede de notícias independente e pró-democracia. O grupo liberal MoveOn Civic Action também é um dos organizadores, afirmaram os grupos.
Espera-se que Trump divulgue a promulgação, no ano passado, de uma ampla legislação de corte de impostos e gastos, o crescimento econômico em 2025 e suas medidas para impedir a migração pela fronteira sul.
Outros progressistas da Câmara planejam assistir ao discurso de Trump, ou pelo menos parte dele, mas demonstrarão seu descontentamento de outras maneiras.
O deputado Mark Pocan, de Wisconsin, por exemplo, convidou o presidente da Associação de Soja de Wisconsin, Doug Rebout, para o discurso.
Os produtores de soja dos EUA temem que as tarifas impostas por Trump sobre produtos estrangeiros tenham prejudicado os agricultores norte-americanos, resultando em retaliações da China que, em alguns momentos, interromperam o comércio de soja e contribuíram para o aumento dos preços de muitos bens de consumo, disse o porta-voz de Pocan, Matt Handverger.
O boicote democrata, noticiado pela primeira vez pelo New York Times, destaca o tom cada vez mais partidário do discurso anual, que nos últimos anos incluiu parlamentares interrompendo o discurso, exibindo cartazes de protesto ou coordenando trajes para destacar várias causas, como os direitos das mulheres.
No ano passado, foi o deputado Al Green, do Texas, um democrata que se levantou e gritou em protesto contra os planos republicanos de cortar o plano de saúde Medicaid para os pobres e deficientes. Ele foi retirado da Câmara pelos seguranças e posteriormente repreendido pela Câmara controlada pelos republicanos.
Em 2020, Trump subiu ao pódio para o último discurso sobre o Estado da União de seu primeiro mandato e se recusou a apertar a mão da então presidente da Câmara, Nancy Pelosi. No final do discurso, Pelosi se levantou e rasgou ostensivamente a transcrição do discurso ao meio. Mais tarde, ela disse que fez isso porque todas as páginas continham uma “mentira”.
O discurso anual do Estado da União, destinado a informar o Congresso sobre questões urgentes que a nação enfrenta, foi proferido pela primeira vez pelo presidente George Washington em 1790 — um relatório rápido de 1.089 palavras, muito diferente dos espetáculos tensos e longos de hoje.
((Tradução Redação São Paulo))
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