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RPT-ROI-Trump oferece às empresas petrolíferas dos EUA um cálice envenenado na Venezuela: Bousso

Reuters6 de jan de 2026 às 11:01

Por Ron Bousso

- O presidente dos EUA, Donald Trump, está dando às empresas de energia americanas a oportunidade (link) de revitalizar a gigantesca e decadente indústria petrolífera da Venezuela. É uma oferta que elas talvez queiram recusar.

Após a deposição pelos militares dos EUA (link) do presidente venezuelano Nicolás Maduro no fim de semana, representantes do governo Trump planejam se reunir com executivos do setor petrolífero ainda esta semana para discutir o aumento da produção de petróleo na Venezuela, conforme noticiou a Reuters (link) na segunda-feira.

Explorar as vastas reservas de petróleo da Venezuela - as maiores do mundo, com mais de 300 bilhões de barris, ou aproximadamente um quinto do estoque global - pode ser uma perspectiva tentadora para a Exxon Mobil XOM.N, Chevron CVX.N e ConocoPhillips COP.N.

O potencial para aumentar a produção de petróleo da Venezuela é enorme. Após anos de má gestão e sanções dos EUA, a produção do país latino-americano despencou de um recorde de mais de 3,5 milhões de barris por dia (bpd) na década de 1970, quando representava cerca de 8% da oferta global, para menos de 1 milhão de bpd no ano passado, menos de 1% da oferta atual.

Uma oportunidade desta magnitude só foi vista em algumas poucas ocasiões nas últimas décadas, incluindo após o colapso da União Soviética no início dos anos 1990, quando as grandes petrolíferas ocidentais se apressaram em adquirir ativos de petróleo e gás a baixo custo, e após a queda de Saddam Hussein no Iraque na década seguinte, quando as empresas de energia fizeram praticamente o mesmo.

Isso pode ser particularmente atraente agora, já que os conselhos de administração das empresas têm aprovado bilhões (link) em investimentos para localizar novos recursos em todo o mundo, numa corrida para aumentar a participação de mercado.

Mas a proposta de Trump está longe de ser uma vitória garantida.

RISCOS SUBTERRÂNEOS

Para começar, a maior parte das reservas de petróleo da Venezuela, localizadas na faixa do Orinoco, são classificadas como petróleo pesado e extrapesado. Esses tipos de petróleo altamente viscosos precisam ser misturados com diluente e refinados para se tornarem petróleo mais leve, para que possam ser extraídos, transportados e processados. Tudo isso aumenta os custos de produção.

O processo de melhoramento, que consome muita energia, também aumenta a pegada de carbono desses tipos de petróleo pesado, o que pode elevar ainda mais os custos se mais governos começarem a tributar as emissões ou a aumentar as taxas existentes.

Segundo estimativas da consultoria Wood Mackenzie, o custo de equilíbrio para os principais tipos de petróleo na faixa do Orinoco já ultrapassa US$ 80 por barril. Isso coloca o petróleo venezuelano no extremo superior da escala global de custos para nova produção. Em comparação, o petróleo pesado produzido no Canadá tem um custo de equilíbrio médio de cerca de US$ 55 por barril.

A meta da Exxon para atingir o ponto de equilíbrio em sua produção global de petróleo até 2030 é de US$ 30 por barril, impulsionada por campos de baixo custo na Guiana e na bacia de xisto Permiana, nos EUA. A Chevron tem uma meta semelhante, enquanto a Conoco possui um plano de longo prazo para gerar fluxo de caixa livre mesmo que os preços do petróleo caiam para US$ 35 por barril. O petróleo LCOc1, CLc1 atualmente é negociado a cerca de US$ 60.

Embora os conselhos de energia tenham apoiado cada vez mais a exploração nos últimos anos, eles insistem que isso seja feito com disciplina nos gastos, tendo em mente o aumento da oferta global e a incerteza em relação à transição energética.

Convencer as principais empresas petrolíferas americanas a investir bilhões na extração do caro petróleo venezuelano pode, portanto, ser uma tarefa bastante difícil.

"A oportunidade deve ser suficientemente atraente para compensar o risco político substancial que persistirá nos próximos anos", afirmou Carlos Bellorin, analista da consultoria Welligence Energy.

Atualmente, a Venezuela não parece se encaixar nos critérios. Claro que isso poderia mudar se um novo governo venezuelano favorável à indústria viesse a fazer alterações nas políticas de tributação e royalties, reduzindo significativamente o custo médio. Mas isso ainda é uma grande incógnita.

RISCOS ACIMA DO SOLO

As companhias petrolíferas, naturalmente, não são estranhas aos riscos políticos. Nas últimas décadas, muitas vezes tiveram de lidar com mudanças abruptas de regime, agitação social e conflitos em pontos críticos como a Líbia, o Iraque, Angola e a Venezuela, para citar apenas alguns.

Mas mesmo para os padrões atuais, a situação na Venezuela – com sua transição de poder altamente incerta – parece trazer mais problemas do que benefícios.

Enquanto Caracas não tiver um novo governo capaz de conquistar a confiança de investidores e bancos internacionais, as empresas petrolíferas hesitarão em assumir grandes compromissos. Comprar ativos por uma ninharia pode ser tentador, mas é muito menos atraente se não houver confiança no contrato.

Além disso, nas últimas décadas, as principais empresas americanas têm se esforçado ao máximo para se distanciar da política externa dos Estados Unidos, enfatizando sua independência para convencer os investidores de que estão focadas exclusivamente no retorno para os acionistas.

Assim, elas relutarão em ser vistas como estando a serviço do presidente dos EUA. Trump afirmou no domingo que havia conversado com todas as principais empresas de energia americanas sobre seus planos de investimento na Venezuela "antes e depois" da captura de Maduro, uma alegação que executivos das empresas refutaram (link).

Contradizer Trump também acarreta riscos para as empresas, porém, riscos potencialmente muito grandes em um momento em que a intervenção governamental na economia está aumentando rapidamente.

Assim, é provável que as gigantes petrolíferas americanas aceitem o plano da Casa Branca, pelo menos em parte, ao sinalizar disposição para explorar oportunidades na Venezuela.

Mas será que elas concordarão em investir bilhões de dólares em um país há muito considerado o exemplo perfeito de corrupção e má gestão econômica? Isso talvez seja difícil de engolir.

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